Essay
O muro, a pedra e o abismo
Sobre a Igreja, o mundo e a velha tentação de corrigir aquilo que não se compreendeu
Há alguma coisa irresistivelmente engraçada na segurança com que cada época se apresenta diante da História convencida de que, enfim, chegou a geração adulta.
Nesta semana, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva contou a um grupo de líderes protestantes que já teria aconselhado o papa Francisco: enquanto a Igreja Católica não acabasse com o celibato e não permitisse que mulheres fossem padres e bispos, continuaria “passando dificuldade”. Em seguida, atribuiu parte do crescimento evangélico no Brasil ao espaço dado às mulheres nessas comunidades.
É uma opinião perfeitamente permitida.
Mas convenhamos que a cena possui certa grandeza cômica.
Uma instituição atravessa aproximadamente dois mil anos; vê o Império Romano passar, assiste às invasões bárbaras, enterra dinastias, sobrevive a cismas, pestes, reis, revoluções, Napoleão, Bismarck, fascismo, comunismo, duas guerras mundiais e, prova talvez mais severa, reuniões de condomínio paroquial.
Então chegamos a 2026.
Finalmente descobriram onde Roma estava errando.
Mais curioso ainda é que, na mesma conversa, Lula contou ter usado durante anos o sangue de Cristo para explicar o vermelho da bandeira do PT e a barba de Jesus para justificar a própria barba.
Em determinado momento, portanto, a cristologia e o departamento de marketing aparentemente dividiram a mesma sala.
Não digo isso para discutir a fé pessoal do presidente, que só cabe a ele e a Deus. Muito menos para transformar estas páginas em texto eleitoral. O que interessa é a ideia escondida por trás dessas afirmações, porque ela é muito maior que Lula e sobreviverá tranquilamente ao seu governo.
É a ideia de que a Igreja deve olhar para o mundo, observar aquilo que o mundo atualmente aprova e, em seguida, adaptar-se para continuar relevante.
Essa ideia tem um problema.
Ela parte do princípio de que o mundo está necessariamente indo na direção certa.
E essa é uma confiança que a História dificilmente justifica.
Existe, antes de tudo, uma pequena confusão na crítica.
O celibato sacerdotal e a ordenação feminina não são duas versões da mesma regra antiquada.
O celibato dos sacerdotes da Igreja Latina é disciplina eclesiástica. Não é dogma. Tanto não é que, nas Igrejas Católicas Orientais, homens casados podem ser ordenados diáconos e sacerdotes, numa disciplina própria e antiquíssima reconhecida pela própria Igreja.
Pode ser alterado?
Pode.
Deve ser?
Aí começa uma discussão legítima.
Podemos falar de razões espirituais, pastorais, históricas e práticas. Podemos defender o celibato ou propor mudanças em sua disciplina latina. Roma possui autoridade para tratar dessa matéria.
A ordenação sacerdotal feminina pertence a outra categoria.
João Paulo II, na Ordinatio Sacerdotalis, não escreveu simplesmente que julgava inoportuno ordenar mulheres. Disse algo infinitamente mais forte: que a Igreja “não tem absolutamente a faculdade” de fazê-lo e que esse ensinamento deve ser mantido definitivamente.
A diferença entre as duas frases é a diferença entre:
“não faremos”
e
“não podemos fazer”.
Parece pequena até compreendermos suas consequências.
Porque toda a lógica do mundo político está acostumada à primeira.
Se uma lei está ruim, muda-se a lei. Se um regulamento perdeu utilidade, altera-se o regulamento. Se o partido perdeu eleições, troca-se o programa, o marqueteiro e, conforme o grau de desespero, talvez até a cor da gravata.
Mas a Igreja não afirma ter inventado a própria fé.
Essa é uma dificuldade real para a mentalidade moderna.
O Papa não é o CEO do cristianismo.
Não recebeu participação majoritária na Santíssima Trindade.
Não pode convocar uma reunião extraordinária, analisar tendências de mercado e anunciar que a Revelação recebeu uma atualização importante depois de dois mil anos de feedback dos usuários.
A autoridade papal, na compreensão católica, encontra limites precisamente naquilo que recebeu.
Bento XVI explicou isso com uma clareza quase brutal poucos dias depois de tornar-se Papa. Na posse de sua cátedra em Roma, disse que “o Papa não é um soberano absoluto” cujo pensamento e vontade são lei; seu ministério está a serviço da obediência a Cristo e à Palavra de Deus. E acrescentou que esse vínculo deve resistir justamente às tentações de adaptação, diluição e oportunismo.
Há aqui uma coisa que o nosso tempo, apaixonado por poder, tem dificuldade de compreender:
existe autoridade justamente porque existem coisas sobre as quais nem a autoridade pode fazer o que quiser.
Um rei que pode mudar a verdade conforme seu humor não é guardião de nada.
É proprietário.
E, para o catolicismo, nem mesmo o Papa é proprietário da Revelação.
É aqui que surge aquela mentalidade que chamamos, por falta de palavra melhor, de progressista.
Não estou usando “progressista” simplesmente como sinônimo de esquerda. Há progressistas perfeitamente confortáveis na direita, no mercado, nas universidades, nos púlpitos e até nas sacristias.
Refiro-me a uma disposição intelectual muito específica:
a crença de que aquilo que veio depois deve, por isso mesmo, ser melhor do que aquilo que veio antes.
Se nossos avós acreditavam numa coisa e nós acreditamos em outra, existe uma tendência quase automática de concluir que evoluímos.
É possível.
Mas há outra possibilidade, um pouco menos lisonjeira:
talvez tenhamos apenas mudado de erro.
Toda geração consegue enxergar com admirável clareza os preconceitos da geração anterior. Olhamos para outros séculos e perguntamos como homens inteligentes conseguiam acreditar naquelas coisas.
O século XX fez isso com o XIX.
O XIX fez isso com o XVIII.
Nós fazemos isso com todos eles.
Quanto aos preconceitos de 2026, curiosamente, não temos preconceitos.
Temos apenas certezas científicas, consensos sociais e opiniões corretas.
É uma coincidência extraordinariamente conveniente.
Chesterton percebeu esse problema melhor do que quase ninguém. Ele tinha a capacidade de discutir um assunto pesado sem parecer que estava preenchendo um formulário do Santo Ofício. Em Ortodoxia, chegou a contar como, na juventude, tentara estar “dez minutos à frente da verdade” e acabara descobrindo que estava muitos séculos atrás dela.
Esse é talvez o verdadeiro terror da tradição.
Ela contém a possibilidade humilhante de que o homem morto há quinhentos anos tenha algo a ensinar ao homem que possui Wi-Fi.
Chesterton deixou uma imagem ainda melhor.
Imagine crianças brincando no topo gramado de uma ilha alta sobre o mar.
Na borda existe um muro.
Enquanto o muro permanece, as crianças correm por toda parte. Brincam, gritam, dançam, disputam espaço, aproximam-se das extremidades sem medo. Então alguém decide retirar o muro.
Afinal, era uma restrição.
Quando os adultos voltam, ocorre algo surpreendente.
As crianças não caíram do penhasco.
Elas estão amontoadas no centro da ilha.
O canto acabou.
Chesterton resume a cena dizendo que a doutrina e a disciplina católicas podem ser muros, mas são “os muros de um parque infantil”.
Isso é muito mais profundo do que a banal oposição entre “progressistas que querem liberdade” e “religiosos que gostam de proibir”.
Nem todo muro existe para manter alguém preso.
Alguns existem para permitir que você corra.
O corrimão limita onde posso colocar o corpo na escada. Curiosamente, é isso que me permite descê-la sem precisar testar experimentalmente a gravidade.
A margem limita o rio. Sem ela, não temos um rio mais livre; temos outra coisa.
A gramática limita o escritor. O resultado é que você consegue entender este parágrafo.
E limites morais podem exercer a mesma função.
A pergunta adulta diante de um limite não é:
“Como me livro disso?”
É:
“por que isso foi colocado aqui?”
Depois, se a resposta for ruim, derrubemos o muro.
Mas derrubá-lo primeiro e investigar depois é um método de engenharia reservado normalmente a governos.
Primeiro retiramos a estrutura.
Depois descobrimos o problema.
Em seguida criamos uma comissão para investigar o problema.
Se não funcionar, haverá um grupo de trabalho.
Se persistir, realizaremos um seminário internacional.
E, ao final, provavelmente descobriremos que a culpa era de alguém que morreu em 1953.
A civilização continua avançando.
Nada disso significa que a Igreja seja imóvel.
Essa caricatura é igualmente preguiçosa.
A Igreja muda muito.
Mudou estruturas administrativas, disciplinas, leis canônicas, práticas litúrgicas, métodos pastorais e formas de organização.
A questão não é se existe mudança.
A questão é que tipo de mudança é possível sem destruir a coisa que está mudando.
Uma criança cresce.
Não se torna um rinoceronte.
Uma árvore se transforma radicalmente desde a semente até a copa.
Mas continua sendo a árvore que aquela semente continha.
O cristianismo chama a isso desenvolvimento: compreender mais profundamente sem simplesmente contradizer aquilo que recebeu.
Bento XVI usou uma expressão particularmente precisa ao falar do Concílio Vaticano II: “reforma [...] na continuidade” do mesmo sujeito-Igreja que cresce ao longo do tempo.
Repare na palavra: reforma.
Não imobilidade.
Não museu.
Não congelamento.
Mas também não ruptura permanente.
Porque uma instituição que muda de identidade toda vez que o século muda de opinião não está viva.
Está apenas obedecendo.
E convém perguntar quem, afinal, é o senhor de quem.
Esse conflito entre o espírito do século e Roma está muito longe de ser novidade.
Henrique VIII descobriu isso no século XVI. Em 1534, depois da ruptura com Roma, o Parlamento reconheceu o rei como cabeça suprema da Igreja da Inglaterra.
O método possui uma admirável simplicidade administrativa.
Se o Papa não concorda com o rei, resta sempre a opção de tornar o rei seu próprio papa.
Resolve-se a controvérsia teológica com uma mudança no organograma.
Napoleão tentou abordagem menos burocrática.
Quando seu conflito com Pio VII se agravou, os Estados Pontifícios foram anexados ao Império e o Papa acabou preso e levado para fora de Roma. Anos depois, Pio VII retornaria; Napoleão abdicaria em 1814. A ironia histórica é ainda maior porque o próprio Pio intercederia depois por condições mais humanas ao antigo imperador em Santa Helena.
A cena dispensa muitos comentários.
Napoleão tinha a Grande Armée.
Pio VII tinha uma batina branca.
A aposta parecia segura.
Não significa que Deus derrube todo governante que brigue com Roma.
Seria uma leitura infantil da Providência e, pior, uma leitura historicamente falsa.
Muitos perseguidores morreram confortavelmente na própria cama. Muitos santos morreram em valas.
A questão é outra:
Napoleão era temporário.
Pio VII também.
Mas a cadeira que ele ocupava estava ali antes dos dois.
Bismarck aprenderia uma versão parecida da lição durante o Kulturkampf. Seu governo aprovou leis para ampliar o controle estatal sobre a Igreja Católica, restringiu ordens religiosas e enfrentou o clero e a organização política católica. O resultado não foi a evaporação do catolicismo alemão: o Zentrum tornou-se uma força parlamentar estável, e no final da década Bismarck concluiu que seus objetivos haviam sido amplamente frustrados e começou a desmontar o confronto.
Bismarck não foi dramaticamente a Canossa.
Era Bismarck.
Fez coisa muito mais característica.
Recalculou.
Existe algo delicioso em imaginar um homem capaz de derrotar a França descobrindo que um padre de aldeia pode ser administrativamente mais inconveniente do que Napoleão III.
É importante, porém, não transformar tudo isso naquela apologética infantil em que os católicos são heróis impecáveis e todo inimigo da Igreja termina atingido por um raio cinco minutos depois.
A Igreja atravessou vinte séculos apesar de uma quantidade constrangedora de católicos.
Esse detalhe não é irrelevante.
Sua história contém santos extraordinários.
E contém papas que hoje provavelmente seriam reprovados numa investigação de compliance antes do café.
Houve corrupção, simonia, nepotismo, ambição, covardia e crimes.
A Igreja contemporânea carrega ainda a vergonha terrível dos abusos sexuais cometidos por clérigos e do encobrimento praticado por autoridades que deveriam proteger os vulneráveis.
Não se deve esconder isso.
Aliás, esse é precisamente um dos elementos estranhos da história.
Se a sobrevivência da Igreja dependesse da excelência de seus administradores, a coisa teria acabado há bastante tempo.
O início já era pouco promissor.
Pedro negou Cristo.
Os Apóstolos discutiram qual deles era o maior.
Judas cuidava da bolsa.
Quando a polícia chegou, praticamente todos fugiram.
Do ponto de vista militar, faltava um exército.
Do ponto de vista financeiro, havia Judas no caixa.
Do ponto de vista político, representação zero.
Do ponto de vista de marketing, o Fundador acabara de ser executado em público entre dois criminosos.
Excelente lançamento.
Dois mil anos depois, estamos discutindo estratégias para aumentar a participação de mercado.
E aqui voltamos à frase de Lula.
Mesmo supondo que ele tivesse razão sociologicamente — e a frase, por si só, não demonstra essa relação causal — ainda faltaria responder à pergunta fundamental:
o crescimento torna uma doutrina verdadeira?
Se amanhã uma pesquisa mostrar que determinada mudança faria a frequência à Missa subir quarenta por cento, o que isso provaria teologicamente?
Se uma religião cresce, ganha razão?
Se diminui, Deus revoga o dogma?
Se 80% da humanidade votar que dois mais dois são cinco, teremos uma grande vitória da democracia sobre a aritmética?
Os números importam.
Muito.
Se os católicos estão deixando a Igreja, bispos, sacerdotes e leigos deveriam perguntar o motivo com seriedade.
Talvez tenhamos pregado mal.
Talvez a catequese tenha sido péssima.
Talvez tenhamos produzido paróquias burocráticas, escândalos, frieza, irrelevância pastoral.
Talvez uma geração inteira tenha recebido formação religiosa suficiente apenas para localizar a igreja em caso de casamento.
Investiguemos.
Corrijamos.
Peçamos perdão quando necessário.
Reformemos aquilo que pode ser reformado.
Existe, porém, uma diferença fundamental entre perguntar:
“Estamos transmitindo bem aquilo que recebemos?”
e perguntar:
“O que precisamos deixar de acreditar para que as pessoas gostem de nós?”
A primeira pergunta é missionária.
A segunda é marketing.
E o Evangelho não possui um histórico particularmente brilhante de focus groups.
Em João 6, depois de um ensinamento difícil, muitos discípulos deixam Cristo.
Jesus não chama Pedro para uma reunião de crise.
Não apresenta doze slides sobre retenção.
Não anuncia que o discurso será reformulado para atingir melhor o público de 18 a 35 anos.
Pergunta aos Doze:
“Vós também quereis ir embora?”
E Pedro responde:
“Senhor, a quem iremos?”
Para uma consultoria de crescimento, é quase sabotagem.
Para o cristianismo, é terça-feira.
Talvez seja isso que incomode tanto na Igreja quando ela realmente se comporta como Igreja.
O mundo não quer apenas o direito de discordar dela.
Esse direito deve existir.
Quer algo a mais.
Quer que ela concorde.
Não basta dizer:
“Eu não acredito nisso.”
É preciso ouvir Roma dizer:
“Você tinha razão.”
Não basta mudar a moral do presente.
É preciso que o passado peça desculpas por não ter previsto o futuro.
Não basta derrubar a cerca.
Queremos que o sujeito que a construiu ressuscite só para admitir que estava sendo retrógrado.
E Roma, quando está sendo fiel à própria natureza, responde de modo profundamente irritante:
algumas coisas são nossas para reformar.
Outras não são nossas.
É isso.
Não há departamento de inovação capaz de resolver.
Há uma velha parábola atribuída a Chesterton que talvez resuma melhor tudo isso.
O Tempo chega ao Egito e ordena ao Faraó que entregue seu reino. O Faraó resiste, até descobrir com quem está falando.
Era o Tempo.
E o Tempo fez com o Egito aquilo que faz com todas as coisas humanas.
Depois passou por Babilônia.
Nínive.
Atenas.
Roma.
Reis, cidades, templos e impérios cederam diante dele.
Até que o velho chegou ao Vaticano.
Deu ao Papa a mesma ordem que havia dado aos outros.
O Papa não se moveu.
“Mas eu sou o Tempo”, disse o velho.
E veio a resposta:
“Eu sou a Eternidade.”
A imagem é deliberadamente exagerada, como convém a Chesterton. O homem sentado na cadeira de Pedro não é eterno. Francisco morreu. Bento XVI morreu. João Paulo II morreu. Pedro morreu.
Mas é justamente esse o ponto.
Eles morrem.
Aquilo que receberam não.
O Papa não é a Eternidade.
Ele aponta para Aquele que entrou no tempo vindo da Eternidade.
E talvez seja por isso que o Tempo consegue devorar faraós, imperadores, chanceleres e presidentes, mas parece ter uma dificuldade quase constrangedora em terminar seu trabalho quando chega diante daquela velha pedra.
Há então o detalhe que talvez seja o mais engraçado de todos.
Lula disse ter dado o conselho ao papa Francisco.
Francisco morreu em 21 de abril de 2025. Robert Francis Prevost foi eleito Leão XIV em 8 de maio daquele mesmo ano.
Ou seja:
o conselho é recente e já precisa de nota de rodapé.
Isso não diminui Lula.
Diminui todos nós.
É a nossa condição.
Presidentes passam.
Papas passam.
Generais passam.
Revolucionários passam.
Escritores que escrevem textos explicando tudo isso também passam, infelizmente antes de descobrir se estavam certos.
Toda carne envelhece.
Todo poder humano expira.
E é aqui que, para mim, a história deixa de ser engraçada.
E começa a ser bela.
Porque enquanto reis foram coroados e derrubados, enquanto fronteiras avançaram e recuaram, enquanto bandeiras subiram sobre palácios e depois terminaram dobradas em museus, alguma coisa extraordinariamente pequena continuou acontecendo.
Um sino tocou numa aldeia.
Uma mãe ensinou o sinal da cruz ao filho.
Um sacerdote levantou uma hóstia sobre um altar.
Uma velha apertou um rosário numa igreja quase vazia.
Um homem entrou num confessionário convencido de que sua vida tinha acabado e saiu acreditando que ainda havia amanhã.
Uma criança recebeu água sobre a cabeça.
A sucessão não permaneceu porque todos os homens eram fortes.
Permaneceu apesar de sua fraqueza.
O edifício não começou com César.
Começou com um Marceneiro da Galileia.
E esse Marceneiro escolheu como pedra visível um pescador que falava antes de pensar, afundava quando deveria andar sobre as águas e negou o Mestre quando deveria defendê-lo.
César tinha legiões.
Pedro tinha redes.
César parecia eterno.
Pedro parecia descartável.
Hoje César pertence aos livros.
E no coração da antiga capital do Império ergue-se uma basílica sobre o lugar venerado desde a Antiguidade como túmulo do pescador.
Não porque Pedro tenha vencido César.
Essa interpretação ainda seria pequena demais.
Mas porque o cristianismo nunca apostou realmente em Pedro.
Apostou naquele que chamou Pedro.
E é por isso que não consigo terminar este texto com o precipício.
O cristianismo não é a religião de homens amedrontados, agarrados a um muro enquanto o mundo desaba.
Chesterton não colocou o muro na ilha para que as crianças passassem a vida olhando para ele.
Colocou-o para que brincassem.
Para que corressem.
Para que cantassem.
Para que chegassem perto da borda sem precisar viver aterrorizadas pelo vazio.
O muro não é o fim da imagem.
A alegria é.
E talvez seja essa a resposta mais profunda a cada época que anuncia, com a solenidade habitual, que a Igreja enfim chegou aos seus últimos dias.
Ela já ouviu isso antes.
Já ouviu em latim imperial.
Já ouviu em francês revolucionário.
Já ouviu em alemão burocrático.
Já ouviu atrás de cortinas de ferro.
Agora ouve em português, no Palácio do Planalto.
Os sotaques mudam.
A profecia permanece curiosamente semelhante.
E então o tempo passa.
O grande governante vira fotografia.
A revolução vira capítulo.
O império vira mapa antigo.
E, numa manhã qualquer que não interessa aos historiadores, o sino toca de novo.
Há noites em que a escuridão parece ter vencido simplesmente porque ocupa todo o horizonte. Nessas horas, a esperança cristã nunca consistiu em fingir que a noite não existe. Consiste em lembrar que a noite não possui autoridade sobre a manhã.
O mundo pode atravessar épocas sombrias.
A Igreja também.
Pode haver escândalo, perseguição, decadência, covardia e silêncio. Pode parecer, durante algum tempo, que todas as tochas se apagaram e que os muros antigos ficaram sozinhos diante do vento.
Mas basta uma vela.
Uma vela é uma arma ridiculamente pequena contra a noite.
Até você perceber que, onde ela arde, a noite já perdeu aquele pedaço do mundo.
É por isso que a Igreja não precisa correr desesperadamente atrás de cada século pedindo licença para continuar existindo.
Sua esperança nunca esteve no século.
Nem no Papa.
Nem nos bispos.
Nem em presidentes simpáticos ou hostis.
Nem mesmo em nós.
Há dois mil anos, ela caminha carregando uma Luz que não produziu.
Reinos vieram e foram embora.
Tronos ficaram vazios.
Águias imperiais caíram.
Bandeiras foram recolhidas.
E o velho barco do Pescador, remendado, vergonhosamente mal tripulado em alguns momentos e quase afundando em outros, continua avançando.
Não porque o mar seja calmo.
Mas porque ainda há uma voz dentro dele dizendo que não tenha medo.
E não foi uma ordem dada apenas uma vez.
Abraão ouviu, quando ainda não sabia para onde estava indo.
Moisés ouviu, quando a missão parecia maior que o homem.
Josué ouviu, quando havia muralhas diante dele.
Os profetas ouviram, quando falar a verdade significava permanecer quase sozinho.
Maria ouviu, antes de responder: “Faça-se em mim segundo a tua palavra.”
Os Apóstolos ouviram, quando o mar rugia e o barco parecia pequeno demais.
E a Igreja continua ouvindo.
Quando os impérios parecem invencíveis.
Quando os altares são abandonados.
Quando os homens da própria Igreja falham.
Quando a noite parece longa demais.
Não tenha medo.
Porque essa voz não promete que não haverá tempestade.
Promete apenas algo muito maior:
que a tempestade não terá a última palavra.
O muro continua.
A pedra continua.
E, para além da longa noite dos homens, também continua a alvorada.
Antes de derrubarmos o muro porque parece antigo, talvez valha a pena olhar mais uma vez para o horizonte.
As crianças ainda têm muito espaço para correr.
E o Sol está nascendo.