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Elias Andrade
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Doutrina Social

A Lanterna e os Fantasmas

Uma análise dos candidatos à Presidência do Brasil (2026) à luz da Doutrina Social da Igreja

por Elias Andrade81 min de leitura
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Preâmbulo — Ao leitor que ainda tem olhos

Escrevo isto não como quem ergue uma bandeira, mas como quem acende uma lanterna.

Há uma diferença entre as duas coisas, e ela é toda a diferença deste ensaio. A bandeira convoca; a lanterna apenas mostra. A bandeira quer que você marche; a lanterna quer que você veja onde pisa. Num tempo em que a política brasileira se tornou uma casa mal-assombrada, povoada de fantasmas de mentira que gemem à esquerda e à direita, vestidos ora de messias, ora de salvadores da pátria, o que proponho é o mais modesto e o mais subversivo dos gestos: acender uma luz pequena e caminhar devagar por cada cômodo, para saber o que é carne e o que é lençol.

Este texto não é uma indicação de voto. É uma análise de voto. Não direi em quem votar, porque não é essa a minha função, nem a lanterna decide o caminho por quem a carrega. Direi, sim, o que cada candidato defende, o que cada um fez, e onde cada posição se encontra ou se choca com aquilo que a Igreja ensina há dois mil anos. A conclusão fica com você e com a sua consciência, que espero, ao fim, um pouco mais iluminada e um pouco menos assombrada.

Para quem escrevo

Escrevo para o católico apostólico romano que quer votar como quem professa a fé, e não como quem torce por um time. Escrevo para o homem e a mulher que suspeitam, com razão, que a paixão política tem cegado mais gente do que a própria ignorância, porque o ignorante ao menos sabe que não sabe, ao passo que o apaixonado jura enxergar justamente quando está mais cego. A esse leitor ofereço não uma opinião a mais no mercado barulhento das opiniões, mas uma régua. Uma régua antiga, testada, e este é o ponto: a mesma para todos.

A régua é uma só

Aqui está o compromisso que sustenta tudo o que segue, e sem o qual este ensaio seria apenas mais um panfleto disfarçado de teologia: a vara que mede um mede todos ou, no português mais claro, o pou que bate em Chico também bate em Francisco. A Igreja condena o comunismo, e o condena com clareza, mas seria desonestidade grave supor que, por condenar o comunismo, ela abençoe o capitalismo selvagem ou o liberalismo que abandona os pobres à própria sorte. Ela condena os dois, e com a mesma firmeza. Quem lê a Rerum Novarum e para na crítica ao socialismo, sem chegar à crítica da usura e da ganância patronal, não leu a Rerum Novarum: leu a metade que lhe convinha, é o famoso açougueiro da Fé.

Portanto, prometo desde já: nenhum candidato receberá tratamento de favor. As posições econômicas da esquerda serão pesadas na mesma balança que as da direita. O erro será chamado de erro esteja ele à minha simpatia ou à minha antipatia. Isto não é neutralidade, a lanterna tem, sim, uma direção, que é a verdade, mas é justiça, e a justiça é o mínimo que se deve a homens que se oferecem para governar um povo batizado.

O acervo que nos guia e o peso de cada voz

Toda análise que segue submete as posições dos candidatos a um corpo de documentos, mas nem toda voz aqui pesa da mesma forma, e o leitor honesto precisa saber distinguir o que obriga a consciência do que apenas a ilumina. Eis a hierarquia que respeitaremos:

  1. As encíclicas sociais e o Magistério ordinário dos Papas — de Rerum Novarum (Leão XIII, 1891) a Laudato Si' (Francisco, 2015), passando por Quadragesimo Anno, Mater et Magistra, Pacem in Terris, Populorum Progressio, Laborem Exercens, Sollicitudo Rei Socialis, Centesimus Annus e Caritas in Veritate. Somam-se a elas documentos como Octogesima Adveniens, Evangelii Nuntiandi, Deus Caritas Est e o motu proprio Intima Ecclesiae Natura. Estes pedem do fiel o obséquio religioso do intelecto e da vontade (Lumen Gentium, 25). Seus princípios obrigam; suas aplicações prudenciais admitem discussão legítima entre católicos.
  2. O Catecismo da Igreja Católica — norma segura e autorizada para o ensino da fé, âncora primária deste ensaio nas questões da vida, da família e da moral (aborto, eutanásia, matrimônio, sexualidade).
  3. O Compêndio da Doutrina Social da Igreja (2004) — síntese ordenada de todo o ensino social; não cria doutrina nova, mas a reúne com autoridade.
  4. Santo Tomás de Aquino — a Suma Teológica e a Suma Contra os Gentios. O Doutor Comum não é o Magistério, mas a Igreja consagrou seu método e recomendou sua doutrina; suas conclusões persuadem pela força da razão reta, sob a luz da fé. É a espinha escolástica deste trabalho.
  5. Joseph Ratzinger, teólogoIntrodução ao Cristianismo, Igreja, Ecumenismo e Política, Fé, Verdade e Tolerância, e seus escritos como padre, bispo e cardeal. Aqui é preciso finura: quando Ratzinger escreve como teólogo particular, fala com a autoridade do maior teólogo da atualidade, mas apenas como doutor privado, e ele mesmo insistia que a ninguém obriga discordar dele nesses escritos. Já as instruções da Congregação para a Doutrina da Fé sob seu governo (Libertatis Nuntius, 1984, e Libertatis Conscientia, 1986, sobre a Teologia da Libertação) são atos do Magistério, e como tais pesam.
  6. Corpus complementar, invocado apenas quando o tema o exigirDivini Redemptoris (Pio XI, 1937), sobre o comunismo ateu, quando o marxismo estiver de fato em jogo; e Libertas, Immortale Dei e Diuturnum (Leão XIII), sobre a origem e o exercício da autoridade política. Trago-os à mesa somente diante de quem os provoca, para que a régua permaneça igual e ninguém apanhe de um documento que não lhe diz respeito.

O método

Para cada candidato, dois movimentos. Primeiro, o dossiê: o que ele prega ao longo da carreira, o que fez, quais leis e projetos, quais escândalos (sempre com o estatuto jurídico exato, que acusação não é condenação, e condenação anulada não é o mesmo que absolvição de mérito), qual sua religião declarada e suas posições sobre a vida e a família. Tudo com fontes. Depois, a peneira: cada tese passa, uma a uma, pelo acervo. Este ponto passa pela Centesimus Annus? Passa. Aquele passa pelo Catecismo? Não passa e direi por quê, com o parágrafo na mão, à maneira dos escolásticos: considerando primeiro o que a posição tem de aparentemente bom, ouvindo depois a palavra da Igreja, e resolvendo enfim onde o bem aparente se ordena ou se corrompe.

Acendo, pois, a lanterna. Que os fantasmas me perdoem.

Luiz Inácio Lula da Silva

Começo por ele não por deferência, mas por gravidade. Lula é, há quase meio século, o eixo em torno do qual gira a política brasileira sendo amado como poucos e odiado como quase ninguém. Justamente por isso é o candidato mais difícil de olhar sem paixão e é onde a lanterna mais precisa de mão firme. Peço ao leitor que segure a própria: tanto o que idolatra quanto o que execra terá aqui motivos de desconforto, e é bom sinal que os tenha.

I. Dossiê Factual

1. Trajetória e Ideologia

Luiz Inácio Lula da Silva nasceu em Garanhuns, no agreste de Pernambuco, em 27 de outubro de 1945, sétimo de oito filhos de uma família paupérrima que migrou para São Paulo em sua infância 12. Começou a trabalhar ainda menino, formou-se torneiro mecânico no Senai e ascendeu politicamente pelo sindicalismo metalúrgico do ABC paulista. Liderou as grandes greves de 1979–1980 sob o regime militar, foi preso por 31 dias com base na Lei de Segurança Nacional, prisão que ampliou sua projeção nacional, e, em fevereiro de 1980, tornou-se o principal fundador do Partido dos Trabalhadores 126. Em 1983 participou da fundação da CUT; em 1984 foi uma das vozes das Diretas Já; em 1986 elegeu-se o deputado federal mais votado do país para a Constituinte, com mais de 650 mil votos 12.

Sobre a ideologia, é preciso exatidão, porque aqui já moram fantasmas. O PT nasceu da organização operária espontânea e se apresenta, desde a fundação, como partido de esquerda que defende o socialismo como forma de organização social, embora diga rejeitar o "socialismo real" de certos países 5. O próprio Lula, porém, cultivou desde cedo uma relação ambígua com os rótulos: em debate televisionado com Collor, em 1989, afirmou que o PT jamais se declarara marxista 45. Sua matriz é menos o marxismo doutrinário e mais um trabalhismo popular de raiz sindical, pragmático, personalista, movido pela questão da desigualdade e por uma retórica de confronto entre "o povo" e "as elites". Venceu a Presidência em 2002 e 2006, viu Dilma Rousseff eleita em 2010 e 2014, e retornou ao poder em 2022, tornando-se o único brasileiro a exercer três mandatos presidenciais 13.

2. Registro de Atos

Nenhuma análise honesta pode negar a escala das políticas sociais dos governos Lula, nem deixar de examiná-las com espírito crítico.

  • Bolsa Família / Fome Zero. Reorganizou programas de transferência de renda no maior programa do gênero no mundo, condicionado a compromissos de saúde e educação. Estudos do IPEA o consideraram relativamente barato (menos de 0,5% do PIB) para efeitos relevantes sobre pobreza e desigualdade, graças à boa focalização nos mais pobres 71113. O Brasil saiu do Mapa da Fome da ONU em 2014, com queda de 82% na subalimentação entre 2003 e 2014, segundo a FAO 13.
  • Educação. Criação do Fundeb (2006), triplicação do orçamento do MEC, abertura de universidades públicas e federais, e os programas ProUni e Fies, que ampliaram o acesso ao ensino superior, de pouco mais de 3 milhões de matriculados em 2002 para cerca de 8 milhões em 2015 512.
  • Outros. Minha Casa Minha Vida, Mais Médicos, Luz para Todos, Farmácia Popular, transposição do São Francisco, valorização real do salário mínimo, entre dezenas de programas 10.

Mas a mesma honestidade exige registrar as críticas de fundo, e algumas vêm da própria esquerda. O ProUni foi acusado de ser uma "falsa democratização", por repassar recursos públicos, via renúncia fiscal, ao setor privado de qualidade duvidosa, promovendo o acesso sem garantir a permanência e por capitalizar grandes grupos educacionais numa concentração de mercado sem precedentes (Kroton, Anhanguera, Estácio) 815. O Bolsa Família, por sua vez, carrega o debate perene sobre a dependência de longo prazo: no terceiro mandato, o próprio governo prometeu e demorou a executar o "pente-fino" para retirar beneficiários indevidos 9. São exatamente as tensões que a peneira doutrinária terá de enfrentar.

3. Controvérsias e Escândalos

Aqui a lanterna precisa ser cirúrgica. Confundir acusação, denúncia, condenação e anulação é o combustível dos fantasmas dos dois lados. Vou nomear cada coisa com seu nome jurídico exato.

  • Mensalão (Ação Penal 470, julgada em 2012). Esquema de compra de apoio parlamentar durante o primeiro mandato de Lula. Operadores de alto escalão do PT foram condenados pelo STF, entre eles José Dirceu, José Genoíno e Delúbio Soares. Lula não foi réu nesta ação e não foi condenado nela; foi, porém, o presidente sob o qual o esquema operou, o que manchou politicamente seu governo. É um fato provado quanto aos condenados, e uma questão de responsabilidade política, não penal, quanto a ele.
  • Lava Jato (triplex do Guarujá, sítio de Atibaia, Instituto Lula). Lula foi condenado em primeira instância pelo então juiz Sérgio Moro (2017), com pena confirmada pelo TRF-4 e, no caso do triplex, pelo STJ, que fixou a pena em oito anos, dez meses e vinte dias 1213. Ficou preso de abril de 2018 a novembro de 2019. Em 2021, contudo, o STF anulou as condenações e é decisivo entender por quê: o ministro Fachin, seguido pelo Plenário em 15 de abril de 2021, decidiu que a 13ª Vara Federal de Curitiba não tinha competência para julgar aqueles casos, por não terem correlação direta com os desvios da Petrobras 1012. Separadamente, a 2ª Turma reconheceu a suspeição (parcialidade) de Moro na condução do caso triplex (HC 164493) 1112.

    O ponto que separa a verdade dos fantasmas: anulação por incompetência do juízo e reconhecimento de parcialidade não são o mesmo que absolvição de mérito. Juridicamente, como não subsiste juízo de culpa válido e definitivo, Lula pode ser considerado inocente perante a Justiça e teve os direitos políticos restaurados, o que viabilizou sua candidatura em 2022 13. Mas a honestidade obriga a dizer as duas leituras: para seus apoiadores, a anulação confirma uma perseguição judicial; para seus críticos, um réu escapou por um vício processual, sem que o mérito fosse julgado a seu favor. A lanterna não decide o que os tribunais não decidiram. Registro os fatos; não pronuncio uma culpa que a Justiça anulou, nem uma inocência de mérito que ela não declarou.

  • Fantasma explícito. Circulou amplamente nas redes, em 2022, uma suposta fala de Lula prometendo cortar benefícios da Igreja e "obrigá-la a casar gays". É fabricação: foi desmentida por checagem e pela assessoria do próprio Lula 18. Registro-a aqui não para repeti-la, mas para apagá-la e é precisamente o tipo de lençol que este ensaio existe para arrancar.

4. Perfil Pessoal e Posições Morais

Lula declara-se católico; é casado em terceiras núpcias com Rosângela da Silva, a Janja, desde 2022 114. Suas posições sobre as questões da vida e da família são de longa data e notavelmente estáveis:

  • Aborto. Repete, desde ao menos 1998 e em praticamente toda eleição, a mesma fórmula: pessoalmente é contra o aborto, mas, como governante, entende que se trata de "questão de saúde pública" 141516. Em 2010, o programa de direitos humanos de seu governo (PNDH-3) chegou a incluir a diretriz de legalizar o aborto, gerando forte reação da CNBB 17. Em 2022, em falas de campanha, associou a pauta à "liberdade da mulher sobre o próprio corpo" e ao amparo às mulheres pobres que abortam 16. A posição, portanto, não é a da legalização militante, mas a da permissividade pública sob convicção privada contrária, distinção que a peneira examinará de perto.
  • União homoafetiva. Favorável à união civil entre pessoas do mesmo sexo desde 1998, com o argumento de que não se deve ser hipócrita quanto a casais que já convivem 14. No terceiro mandato, recriou o Ministério dos Direitos Humanos, criou a Secretaria Nacional dos Direitos das Pessoas LGBTQIA+ e vetou, em 2024, emenda orçamentária que vedava despesas contra a "família tradicional" 19.
  • Drogas. Historicamente cético quanto à legalização; em 2009 declarou não acreditar que a descriminalização resolvesse o problema do consumo.

5. Plano de Governo 2026

Lula posicionou-se publicamente como candidato à reeleição para um eventual quarto mandato desde o início do terceiro 20. O programa, em finalização, prioriza iniciativas ditas "estruturantes" 21. Os eixos que se desenham:

  • Social e econômico: ampliação da educação em tempo integral como política nacional; isenção e reforma do Imposto de Renda; redução da jornada de trabalho com fim da escala 6×1; reforma agrária com ênfase em soberania alimentar; reconstrução da capacidade administrativa do Estado 2021.
  • Segurança: proposta de um Ministério da Segurança Pública autônomo 21.
  • Político-institucional: soberania nacional e defesa da democracia como temas centrais reforçados, segundo a campanha, pelo cenário de tensão comercial com os Estados Unidos, além de uma "reforma da comunicação" voltada a enfrentar a concentração no setor 2223.

II. A Peneira Doutrinária

Passo agora cada tese pela régua. Ouço primeiro o que ela tem de aparentemente bom, depois a palavra da Igreja, e resolvo enfim — com o parágrafo na mão.

Eixo Econômico-Social

Tese 1 — A opção pelos pobres e a transferência de renda.

Parece que Lula está do lado certo: erguer milhões da miséria, dar de comer a quem tem fome, valorizar o salário do trabalhador. E de fato está, em parte, e nessa parte a Igreja é sua aliada, não sua juíza. Sed contra: a Rerum Novarum faz da sorte do pobre e do operário o coração da questão social; a Populorum Progressio funda todo o desenvolvimento na promoção integral de cada homem; a Sollicitudo Rei Socialis consagra a opção preferencial pelos pobres como exigência da caridade, e não como bandeira ideológica, e a mesma opção é reafirmada, note-se bem, pela instrução Libertatis Conscientia (1986), de Ratzinger, que a resgata das mãos do marxismo para devolvê-la à Igreja. Combater a fome não é concessão à esquerda; é mandamento.

Respondeo: aqui Lula [CONFORME] no fim. Mas a peneira não solta a tese sem uma ressalva grave quanto aos meios. A Centesimus Annus (§48) adverte contra o "Estado assistencial" que, ao substituir e absorver, sufoca as energias da sociedade, multiplica a burocracia e trata o pobre como cliente perpétuo em vez de agente da própria elevação. E a Laborem Exercens ensina que a dignidade do homem se realiza sobretudo no trabalho, de modo que a renda transferida é justa como ponte, e desordenada como destino. A crítica ao ProUni como concentração de mercado e "acesso sem permanência", e o debate sobre a dependência de longo prazo do Bolsa Família, tocam exatamente esse nervo. Veredito: [CONFORME COM RESSALVA] — reto no amor aos pobres que a Igreja ordena; deficiente onde o assistencialismo permanente ocupa o lugar da promoção que a subsidiariedade exige (Centesimus Annus, §48; Laborem Exercens, §6).

Tese 2 — O Estado forte, o desenvolvimentismo e o dirigismo econômico.

Parece que só um Estado robusto pode enfrentar a desigualdade estrutural de um país como o Brasil. Sed contra: e aqui a régua corta dos dois lados, como prometi. A Quadragesimo Anno (§§79–80) grava o princípio de subsidiariedade, pois é injustiça grave que a autoridade maior absorva o que as comunidades menores podem fazer por si. Mas a mesma encíclica, e a Rerum Novarum antes dela, condenam com igual força o liberalismo que abandona o trabalhador ao mercado sem freios. A Igreja não é nem estatista nem liberal; é personalista.

Respondeo: [CONFORME COM RESSALVA]. Onde o Estado de Lula serve à justiça e ao bem comum quando age regulando, protegendo o vulnerável, garantindo o mínimo, cumpre o que a Rerum Novarum pede. Onde o dirigismo incha, centraliza e asfixia os corpos intermediários e a livre iniciativa, fere a subsidiariedade da Quadragesimo Anno e da Centesimus Annus (§48). Que ninguém use esta ressalva para batizar o liberalismo selvagem: a vara que aqui adverte o estatismo é a mesma que, no candidato de mercado, advertirá a idolatria do lucro (Centesimus Annus, §§34–35).

Tese 3 — A corrupção como método de governo.

Parece que este ponto deveria ficar fora, já que as condenações de Lula foram anuladas. Sed contra: distingo, como fiz no dossiê, a pessoa do fenômeno. Quanto a Lula, respeito o estatuto jurídico, ou seja, não lhe imputo culpa penal que os tribunais anularam. Mas o Mensalão é fato provado quanto aos operadores condenados do seu partido, e a corrupção do processo político é, ela mesma, matéria da doutrina. O Catecismo ensina que a autoridade só é legítima quando busca o bem comum, e não o interesse privado (§§1903–1904), e condena o roubo e a fraude em suas formas sociais (§2409); a Caritas in Veritate faz da verdade e da transparência condições da caridade na vida pública.

Respondeo: sobre o fenômeno da compra de apoio parlamentar que marcou seus governos — [DISSONANTE] (Catecismo, §§1903–1904, 2409). Sobre a pessoa de Lula, a minha peneira se cala onde a Justiça se calou, e apenas registra a gravidade moral do esquema que seu grupo operou. E, como régua única, este mesmo veredito recairá, sem desconto, sobre qualquer corrupção comprovada à direita.

Eixo Moral e Antropológico

Tese 4 — O aborto como "questão de saúde pública".

Esta é a tese que o leitor esperava, e é onde a lanterna ilumina mais fundo. Parece razoável, e até compassivo: Lula diz-se pessoalmente contra o aborto; não quer proibir o debate; quer apenas que o Estado não deixe morrer a mulher pobre que já abortou, enquanto a rica se trata em clínica ou no exterior. Há aqui uma verdade real sobre a desigualdade e é essa verdade que dá à posição sua força sedutora.

Sed contra: ouçamos a Igreja sem rodeios. O Catecismo ensina que a vida humana deve ser respeitada e protegida de modo absoluto desde a concepção, e que o aborto direto é gravemente contrário à lei moral, sendo o embrião, desde o primeiro instante, a ser tratado como pessoa (§§2270–2273). Mais: a fórmula "sou contra pessoalmente, mas como governante permito" é exatamente a cisão que o Magistério rejeita, é a separação entre a convicção privada e o dever público de proteger o inocente. Quem tem autoridade e não protege, coopera. Sem mais.

Respondeo: e agora dissolvo a aparência. A "liberdade da mulher sobre o próprio corpo" é um bem, mas cessa de ser liberdade no exato ponto em que se exerce sobre um corpo que não é o seu, o do filho por nascer. A autonomia que suprime uma vida inocente já não é autonomia: é seu contrário. E o dilema comovente, "ou legalizamos, ou as pobres morrem", é um falso dilema: o Estado pode e deve cuidar da mulher em risco sem retirar do nascituro a proteção da lei; salvar uma vida jamais exige suprimir outra. A compaixão verdadeira abraça as duas. Veredito: [DISSONANTE], de modo claro e sem atenuante (Catecismo, §§2270–2273). O bem aparente é real; a conclusão a que se anexa é ilícita.

Tese 5 — A união homoafetiva e a redefinição do matrimônio.

Parece apenas honestidade reconhecer casais que já convivem e proteger seus bens; parece caridade não ser hipócrita. Sed contra: o Catecismo distingue, com um rigor que o debate público quase sempre perde, a pessoa e o ato. Os atos homossexuais são declarados intrinsecamente desordenados (§§2357–2359); mas, na mesma passagem, a Igreja manda que os homens e mulheres com essa inclinação sejam acolhidos com respeito, compaixão e delicadeza, e que se evite a seu respeito toda discriminação injusta. E o matrimônio, por sua natureza, é a união de um homem e uma mulher ordenada ao bem dos cônjuges e à geração dos filhos (§§1601–1605): não uma convenção que o Estado possa redesenhar, mas uma realidade que ele apenas reconhece.

Respondeo: distingo, portanto, dois planos. Quanto à dignidade e ao respeito devidos às pessoas homossexuais e ao repúdio a toda violência ou desprezo, Lula está com a Igreja, e a Igreja com ele (Catecismo, §2358). Quanto à equiparação da união homoafetiva ao matrimônio e à sua redefinição jurídica — [DISSONANTE] (Catecismo, §§1601–1605, 2357). A peneira condena a redefinição do matrimônio; não condena, jamais, a dignidade de ninguém. Confundir as duas coisas seria trair a própria régua.

Eixo Político-Institucional

Tese 6 — Democracia, instituições e soberania.

Parece, e com razão, que a defesa das instituições e da democracia é um bem, sobretudo após um período de tensão golpista. Sed contra: a Igreja valoriza expressamente a democracia (Centesimus Annus, §46), mas Ratzinger, em Igreja, Ecumenismo e Política, acrescenta o aviso que dá a esta tese sua ressalva: a democracia sem verdade torna-se manipulável, pois se converte a força do número em critério do bem, e abre a porta àquela "ditadura do relativismo" que ele denunciaria como cardeal.

Respondeo: [CONFORME COM RESSALVA]. No apreço à democracia e na defesa das instituições, reto (Centesimus Annus, §46; Pacem in Terris, sobre autoridade e bem comum). A ressalva mira a "reforma da comunicação" e o enfrentamento à "concentração" 2223: são bandeiras que podem servir ao pluralismo, ou, se instrumentalizadas para controlar a narrativa, ferir a liberdade que dizem defender. A Igreja aprova a democracia enraizada na verdade; desconfia da que se enraíza apenas na vontade. O veredito fica, pois, aberto ao que a prática mostrar.

Tese 7 — A relação com a fé e com a Igreja.

Registro, para encerrar o eixo, o que já disse no dossiê: a fala viral que o pintava como perseguidor da Igreja é falsa e desmentida 18. Lula declara-se católico e cultiva relação pública com lideranças religiosas. A peneira não julga a sinceridade de uma alma, só Deus a lê. Julga posições, e essas já foram pesadas acima, uma a uma. Que o julgamento dele seja feito pelo Justo Juiz, Nosso Senhor Jesus Cristo.

III. Síntese

Sem recomendação de voto, apenas o retrato que a lanterna revelou.

Lula apresenta ao eleitor católico um caso genuinamente dividido, e a honestidade proíbe tanto a canonização quanto a demonização. Do lado da luz, sua obra concentra aquilo que a Doutrina Social mais insistentemente ordena: a opção pelos pobres, o combate à fome, a elevação material dos últimos, não como retórica, mas com resultados que a própria ONU reconheceu. Quem, em nome da fé, despreza esse mérito, não conhece a Rerum Novarum. Do lado da sombra, choca-se frontalmente com a Igreja no que ela tem de inegociável: a defesa da vida desde a concepção. A fórmula "contra pessoalmente, permissivo publicamente" quanto ao aborto é, à luz do Catecismo, uma dissonância grave e não atenuável e as questões da família seguem o mesmo rumo. Restam, no meio, as ressalvas de método: o assistencialismo que a subsidiariedade contesta, o estatismo que a Quadragesimo Anno limita, a sombra da corrupção que manchou seus governos (respeitado o estatuto jurídico de sua pessoa).

Em suma: um candidato conforme no fim social, dissonante no fim moral, e a ser vigiado no meio institucional.

Flávio Nantes Bolsonaro

Passo ao segundo candidato com a mesma promessa que fiz no primeiro, e agora ela será testada de verdade. Com Lula, a lanterna incomodou quem o idolatra; com Flávio, incomodará quem espera da direita um passe livre em nome dos "valores". Não haverá passe livre. A vara que mediu um mede o outro e o leitor que aplaudiu a firmeza contra o aborto na análise anterior precisará ter o mesmo estômago para a firmeza contra a idolatria do lucro e o desprezo pela dignidade do preso nesta. Se tiver, é sinal de que ama a verdade mais do que o time.

I. Dossiê Factual

1. Trajetória e Ideologia

Flávio Nantes Bolsonaro nasceu em Resende (RJ), em 30 de abril de 1981, primogênito do ex-presidente Jair Bolsonaro. Advogado formado pela Universidade Cândido Mendes, foi o primeiro dos filhos a entrar na política: elegeu-se deputado estadual do Rio aos 21 anos, em 2002, e cumpriu quatro mandatos consecutivos na Alerj (2003–2019), concentrando-se em segurança pública, administração penitenciária e pautas penais, inclusive a redução da maioridade penal 242527. Em 2016 disputou a Prefeitura do Rio pelo PSC, ao lado do Pastor Everaldo, e ficou em quarto lugar 41. Em 2018, no mesmo pleito em que o pai foi eleito presidente, tornou-se o senador mais votado do Rio, com mais de 4,3 milhões de votos; o mandato vai até o início de 2027 2425. Passou pelo PSL e pelo Patriota antes de acompanhar a família ao Partido Liberal (PL), sua legenda atual 24.

Sua matriz ideológica é o bolsonarismo: uma direita nacional-conservadora que funde a pauta de costumes cristã (pró-vida, pró-família, antagonismo à chamada "ideologia de gênero"), o punitivismo em segurança pública, o armamentismo civil e um liberalismo econômico de mercado. É tratado como um dos principais nomes do grupo do pai no Congresso e seu interlocutor mais próximo 26. Em dezembro de 2025, anunciou que fora escolhido pelo próprio Jair Bolsonaro como sucessor para a disputa presidencial de 2026, solução encontrada porque o ex-presidente está inelegível e cumpre pena após condenação por tentativa de golpe de Estado 25. A candidatura, contudo, não é consenso nem na direita: enfrenta a sombra de Tarcísio de Freitas, preferido do centrão e do mercado, e ruídos com a madrasta, Michelle Bolsonaro 39.

2. Registro de Atos

Aqui a honestidade obriga um registro incômodo para seus apoiadores, tão incômodo quanto foi para os de Lula a ressalva do assistencialismo: a produção legislativa de Flávio é escassa. Em cerca de oito anos de mandato no Senado, apresentou por volta de 57 projetos de lei, dos quais apenas um foi aprovado em definitivo nas duas Casas, o PL 3.190/2023, ligado ao Programa Nacional de Microcrédito Produtivo Orientado 28. A maior parte de suas propostas gira em torno de segurança pública, valorização de policiais, pautas criminais e temas do Rio de Janeiro, sua base 2728. Sua força política, portanto, reside menos na obra legislativa e mais no capital político do sobrenome e na articulação do campo, o que é um fato, não um insulto, e que a análise registra como registraria de qualquer outro.

3. Controvérsias e Escândalos

Aplico aqui, palavra por palavra, o mesmo critério jurídico que apliquei a Lula. Acusação não é condenação; e arquivamento por vício processual não é absolvição de mérito.

  • A "rachadinha" da Alerj (caso Queiroz). Em novembro de 2020, o Ministério Público do Rio denunciou Flávio e seu ex-assessor Fabrício Queiroz por organização criminosa, lavagem de dinheiro, peculato e apropriação indébita, num suposto esquema de desvio de salários de servidores de seu antigo gabinete na Alerj, entre 2007 e 2018 3032. Segundo o MP-RJ, o esquema teria desviado cerca de R$ 6 milhões, com Queiroz como operador; a investigação nascera em 2018, de um relatório do Coaf que apontou movimentação atípica de R$ 1,2 milhão nas contas de Queiroz 30. O ponto decisivo é o desfecho jurídico: o STJ anulou as decisões que haviam autorizado a quebra de sigilos bancário e fiscal; a 2ª Turma do STF reconheceu que Flávio tinha foro por prerrogativa de função e arquivou a apuração por entender que os sigilos foram quebrados sem a devida autorização judicial (placar de 3 a 1); e, em maio de 2022, a Corte Especial do TJ-RJ arquivou a denúncia, decisão mantida por Gilmar Mendes, que em fevereiro de 2025 negou os recursos do MP para reabrir o caso 29303132.

    O mesmo que disse de Lula, digo de Flávio, e pela mesma régua: anulação por ilicitude de prova e questão de foro não equivale a absolvição de mérito. Flávio nunca foi julgado nem condenado no caso, mas também não foi inocentado quanto ao fato, e os próprios tribunais registraram que a investigação poderia ser refeita 2932. Para seus apoiadores, o arquivamento comprova a inexistência do crime; para seus críticos, um investigado escapou pela porta processual, sem que o mérito fosse examinado. A lanterna registra os fatos e o estatuto jurídico; não pronuncia culpa que a Justiça não firmou, nem inocência de mérito que ela não declarou. É a simetria exata com o candidato anterior.

  • Associações e falas. Flávio classificou como "perseguição" as investigações contra o pai, minimizou o caso das joias sauditas e defende anistia ampla, geral e irrestrita para o inquérito do golpe 26. A delação de Mauro Cid afirmou que Flávio e o irmão Eduardo divergiam quanto a uma eventual tentativa de golpe em 2022 26. Registrou-se ainda proximidade com o banqueiro Daniel Vorcaro (Banco Master), preso, relação que o senador negou 28.
  • Fantasma explícito. Em fevereiro de 2026, um juiz de Brasília determinou que se apagasse conteúdo falso que ligava Flávio à fraude do Banco Master, por não haver relação entre a "rachadinha" e aquele caso 33. Registro-o, como registrei a fábula que caluniava Lula, para arrancá-lo: a régua da honestidade protege também aquele de quem discordamos.

4. Perfil Pessoal e Posições Morais

Flávio é casado com Fernanda Antunes Figueira, com quem tem duas filhas 2641. Suas posições sobre a vida e a família são claras e coerentes com o campo conservador cristão:

  • Aborto. É declaradamente contrário ao aborto. Em pronunciamento no Senado, em junho de 2024, saudou o colega Eduardo Girão por sua postura contra o aborto, chamando-a de bandeira que os une, e defendeu as ações do governo Bolsonaro e da ex-ministra Damares Alves na proteção à vida 38. Como deputado estadual, chegou a presidir uma Comissão Especial de Planejamento Familiar 41. Aqui a régua única exige que eu seja tão claro no elogio quanto fui, com Lula, na censura: nesta matéria, Flávio está com a Igreja.
  • Família e sexualidade. Alinha-se à defesa da família heterossexual e monogâmica e ao repúdio à "ideologia de gênero", bandeiras do bloco pró-família do bolsonarismo 38.
  • Segurança e armas. Punitivista convicto e favorável à flexibilização do acesso civil a armas, na esteira do pai 3637.
  • Religião. Apresenta-se dentro do campo cristão-conservador, cortejando fortemente o eleitorado evangélico, sua pré-campanha misturou culto e comício 39. A identidade religiosa da família Bolsonaro é híbrida (católica e evangélica), e a sinceridade do posicionamento religioso de Flávio chegou a ser questionada publicamente, inclusive por vozes do próprio campo, que o acusaram de oportunismo 3940. Como falei ao fim da análise do candidato anterior, que o julgamento dele seja feito pelo Justo Juiz, Nosso Senhor Jesus Cristo. Registro a controvérsia e passo às posições, que são o que se pode pesar.

5. Plano de Governo 2026

A pré-candidatura, a ser oficializada em convenção do PL em agosto, organiza-se em torno de alguns eixos 2434353637:

  • Segurança pública (o coração da campanha). O "Plano Brasil Sem Medo", estruturado em 12 eixos, propõe endurecimento da legislação penal, fim das saídas temporárias, fim da progressão de pena para crimes hediondos, redução da maioridade penal de 18 para 16 anos, ampliação do sistema prisional e retomada do controle estatal de presídios e territórios dominados por facções — tendo El Salvador (o modelo Bukele) como referência explícita 343637.
  • Economia. Redução de gastos públicos, suspensão da reforma tributária e apoio à PEC 12/2026, a chamada "escala 7×0", que flexibiliza regras trabalhistas e cria um regime baseado em horas trabalhadas; o plano foi lançado na Faria Lima, sinalizando ao mercado financeiro 3537.
  • Anistia e agenda político-institucional. Defesa de anistia ampla para Jair Bolsonaro e os réus do 8 de janeiro, apresentada como "pacificação nacional"; críticas frontais ao STF; e a construção de uma "megabancada" da direita no Congresso 343536.

II. A Peneira Doutrinária

Eixo Moral e Antropológico

Tese 1 — A defesa da vida desde a concepção.

Parece, e aqui a aparência coincide com a verdade, que Flávio está do lado certo. Sed contra: o Catecismo ensina que a vida humana deve ser respeitada e protegida de modo absoluto desde a concepção, e que o aborto direto é gravemente contrário à lei moral (§§2270–2273). Respondeo: e não há dilema a dissolver, porque não há bem aparente encobrindo mal. [CONFORME], plena e sem ressalva. Faço questão de gravar o contraste: onde Lula ergueu a fórmula "contra pessoalmente, permissivo publicamente", que a peneira reprovou, Flávio sustenta a proteção pública do nascituro, que a peneira aprova. Esta é a régua única em seu momento mais límpido: não elogiei nada de falso em Lula e não calo nada de verdadeiro em Flávio. A Igreja é pró-vida, e nisto o candidato caminha com ela.

Tese 2 — A família e o trato com as pessoas homossexuais.

Parece fidelidade defender a família fundada no matrimônio entre homem e mulher. E é nessa parte. Sed contra: o Catecismo confirma que o matrimônio, por natureza, é a união de um homem e uma mulher ordenada ao bem dos cônjuges e à geração dos filhos (§§1601–1605). Mas a mesma régua tem outro dente, e é aqui que a análise cobra da direita o que cobrou da esquerda. O mesmo Catecismo manda que os homens e mulheres homossexuais sejam acolhidos com respeito, compaixão e delicadeza, e que se evite a seu respeito toda discriminação injusta (§2358). Respondeo: [CONFORME] na defesa da natureza do matrimônio; [CONFORME COM RESSALVA] onde a retórica do campo escorrega do combate à ideologia para o desprezo às pessoas, o escárnio, a demonização, o tratamento do outro como inimigo a ser humilhado. Assim como reprovei em Lula a redefinição do matrimônio sem negar a dignidade de ninguém, reprovo aqui a ofensa à dignidade das pessoas sem abrir mão da verdade sobre o matrimônio. A régua é uma só, e corta para os dois lados.

Eixo Econômico-Social

Tese 3 — O liberalismo econômico, o corte de gastos e a "escala 7×0".

Parece virtude de bom administrador cortar desperdício, equilibrar as contas e desobstruir a economia. E há aqui um bem real: a Doutrina Social reconhece a legítima autonomia da economia, o valor da livre iniciativa e o dever de boa gestão dos recursos públicos (Centesimus Annus, §§32, 34). Sed contra, e aqui está o espelho exato da ressalva que fiz a Lula. A Quadragesimo Anno condena o liberalismo sem freios com a mesma firmeza com que condena o socialismo; a Rerum Novarum defende o justo salário e o direito do trabalhador ao descanso, e denuncia o tratamento do trabalho humano como mera mercadoria; a Laborem Exercens (§§6, 19) ensina a prioridade do trabalho sobre o capital e a centralidade dos direitos do trabalhador; e a Centesimus Annus (§§34–35) adverte que há necessidades humanas que o mercado não satisfaz e que não se pode idolatrar o lucro. Respondeo: sobre a responsabilidade fiscal em si — [CONFORME] (é boa administração e respeita a subsidiariedade). Mas sobre a "escala 7×0" e a erosão das proteções trabalhistas e do descanso — [DISSONANTE] (Rerum Novarum, sobre o descanso e o justo salário; Laborem Exercens, §19). O trabalhador não é insumo cuja jornada se espreme; é pessoa cuja dignidade a Igreja protege. E que ninguém use esta condenação para batizar o estatismo que reprovei em Lula: a mesma vara que ali advertiu o Estado que sufoca a sociedade adverte aqui o mercado que devora o trabalhador. Repito: a Igreja não é liberal nem socialista; é personalista.

Eixo Político-Institucional

Tese 4 — O punitivismo, a redução da maioridade penal e o modelo Bukele.

Parece, e para o cidadão aterrorizado pela violência, com muita razão aparente, que só a mão pesada restaura a ordem. E a Igreja reconhece o dever do Estado de proteger o bem comum e as vítimas, e a legitimidade da pena (Catecismo, §2266; Rerum Novarum, sobre a autoridade a serviço da ordem). Sed contra: o mesmo §2266 ensina que a pena tem três finalidades: reparar a desordem, defender a sociedade e corrigir o culpado, visando sua recuperação. Uma lógica puramente incapacitante, que amontoa seres humanos e abandona a finalidade de correção, fere essa doutrina; e o modelo de encarceramento em massa com suspensão de garantias (a referência salvadorenha) põe em risco o devido processo e a dignidade do preso, que não se perde com o crime. Respondeo: [CONFORME] no dever de proteger o inocente e restaurar a ordem, que é real e que a esquerda muitas vezes negligencia; [CONFORME COM RESSALVA], tendendo ao DISSONANTE, onde o punitivismo esquece que o encarcerado continua sendo imagem de Deus e que a pena sem horizonte de recuperação trai o Catecismo (§2266). A dignidade humana não termina na porta da cadeia e este ensaio não a concede à direita mais barato do que à esquerda.

Tese 5 — A anistia, o ataque às instituições e a reconciliação na verdade.

Parece nobre pregar a "pacificação nacional", e a Igreja de fato ama a reconciliação e o perdão, são o coração do Evangelho. Sed contra: a Caritas in Veritate funda toda caridade na verdade, e o Catecismo lembra o dever de contribuir para o bem da sociedade num espírito de verdade e justiça (§§2238–2240). Não há reconciliação cristã que dispense a verdade e a justiça; o perdão pressupõe o reconhecimento do que se fez. Uma anistia ampla e irrestrita que apague a responsabilidade por um atentado à ordem constitucional, sem verdade, sem reparação, não é pacificação, é amnésia imposta. E a deslegitimação sistemática dos tribunais reedita aquele perigo que Ratzinger apontou: a democracia que troca a verdade pela força da vontade (Igreja, Ecumenismo e Política). Respondeo: [CONFORME COM RESSALVA]. O anseio de reconciliação é reto; a forma, sendo uma anistia sem verdade e ataque às instituições, é dissonante da caridade na verdade (Caritas in Veritate). Simetria com o candidato anterior: assim como marquei em Lula a sombra sobre as instituições (a "reforma da comunicação"), marco em Flávio a sombra sobre as instituições (o assalto aos tribunais e a anistia sem verdade).

Tese 6 — O armamento civil.

Parece legítima defesa do lar; a Igreja não possui doutrina absoluta que imponha o desarmamento, e reconhece o direito à legítima defesa (Catecismo, §2265). Sed contra: a mesma tradição, ordenada à paz e à proteção da vida, sobretudo diante dos números de mortes juvenis por arma de fogo, aconselha prudência grave na difusão de armas. Respondeo: matéria prudencial, não de dogma; [CONFORME COM RESSALVA], sendo legítima em princípio, a ser pesada pela lógica da cultura da vida, que recomenda cautela. Registro-a como prudencial para não fazer, à direita, o que seria injusto: transformar em pecado o que a Igreja deixou ao juízo prudente.

III. Síntese

Sem recomendação de voto, apenas o retrato que a lanterna revelou, e a simetria que a honestidade impõe.

Flávio Bolsonaro apresenta ao eleitor católico o retrato inverso e complementar ao de Lula, e é essa simetria que prova a régua. Do lado da luz, é onde Lula estava na sombra: na defesa intransigente da vida desde a concepção e da família fundada no matrimônio, matérias em que a Igreja é inegociável e em que o candidato caminha com ela. Quem, em nome do progressismo, despreza esse mérito, não leu o Catecismo. Do lado da sombra, é frequentemente onde Lula tinha algum mérito: no eixo social, a "escala 7×0" e a erosão das proteções do trabalhador chocam-se com a Rerum Novarum e a Laborem Exercens tão frontalmente quanto o assistencialismo de Lula se chocava com a subsidiariedade, pois a Igreja condena a idolatria do lucro com a mesma vara que condena a do Estado. E o punitivismo que esquece a dignidade do preso, e a anistia que dispensa a verdade, mancham o eixo institucional. Resta a sombra da "rachadinha", pesada com o mesmo cuidado jurídico dispensado a Lula.

Em suma: um candidato conforme no fim moral, dissonante em pontos do fim social, e a ser vigiado, assim como o outro, no eixo institucional. Onde um acerta, o outro erra, e vice-versa; e é exatamente por isso que nenhum dos dois é a lanterna, e nenhum é o Sol.

Ronaldo Ramos Caiado

Chego ao terceiro candidato e, com ele, a lanterna ilumina algo que os dois primeiros já anunciavam sem que eu o dissesse por inteiro. Vale dizê-lo agora, porque é a espinha de todo o ensaio: a Igreja condena as duas absolutizações. Em Lula, vimos a tentação de absolutizar o Estado e a Quadragesimo Anno a limitou pela subsidiariedade. Em Caiado veremos a tentação oposta e simétrica: absolutizar a propriedade e a Populorum Progressio a limitará pela função social. Não é que a Igreja fique no meio, como quem divide a diferença; é que ela recusa os dois ídolos, o do Estado que engole a sociedade e o da propriedade que se declara intocável. Guarde isto, meu caro irmão, porque é aqui que a régua única mostra que não tem lado, só tem prumo.

I. Dossiê Factual

1. Trajetória e Ideologia

Ronaldo Ramos Caiado nasceu em Anápolis (GO), em 25 de setembro de 1949, filho de uma tradicional oligarquia goiana: seu avô, Antônio "Totó" Ramos Caiado, foi deputado, senador e um dos coronéis que dominaram a política do estado nas primeiras décadas do século XX 4357. Médico ortopedista formado pela UNIRIO (1972), com especialização em cirurgia de coluna em Paris, é também produtor rural, hoje proprietário de vasta extensão de terras em Goiás 4249.

Sua projeção nacional, porém, não nasceu do bisturi nem da urna, mas de uma bandeira: em maio de 1985, Caiado foi o principal fundador e primeiro presidente (1986–1989) da União Democrática Ruralista (UDR) 424357. A entidade, definida pelo CPDOC da Fundação Getúlio Vargas como expressão da radicalização patronal rural contra a reforma agrária, tinha por mote a "intocabilidade do regime de propriedade existente" e, segundo a mesma fonte, fez do recurso à força um instrumento central de pressão 47. Guardo esta expressão: "intocabilidade da propriedade", porque será o coração da peneira.

Em 1989, Caiado estreou nas urnas concorrendo à Presidência (PSD), com votação inexpressiva (menos de 1%), mas com voz estridente 4446. Depois vieram o PFL/DEM, do qual foi líder, cinco mandatos de deputado federal e o Senado (2014, com 47,57% dos votos) 4457. Elegeu-se governador de Goiás em 2018 e reelegeu-se em 2022, ambas em primeiro turno, feito inédito no estado, e deixou o cargo em março de 2026 para disputar o Planalto 4557. Migrou do União Brasil para o PSD, de Gilberto Kassab, legenda que o oficializou como pré-candidato representando uma "terceira via", um rótulo que ele mesmo prefere trocar por "via independente", ainda que seu perfil esteja bem mais à direita do que ao centro 5658. Distanciou-se de Jair Bolsonaro e cultivou a imagem de gestor de perfil fiscal austero 5156.

2. Registro de Atos

A gestão de Goiás é apresentada como sua principal credencial, e a honestidade manda registrar tanto a luz quanto a sombra.

  • Economia de doutrina liberal. Caiado decretou calamidade financeira ao assumir e conduziu um amplo programa de privatizações na Celg GT, Iquego, GoiásGás, GoiásTelecom, Metrobus e a desestatização da Celgpar (Lei 22.286) 5153. A distribuidora de energia, vendida à Equatorial, tornou-se objeto de forte controvérsia: quedas constantes de fornecimento penalizaram consumidores residenciais, comerciais e rurais, ao ponto de o próprio governo mover ação contra a concessionária 5152.
  • Segurança pública. É a vitrine que ele mais destaca; a gestão associou-se a resultados na queda da criminalidade e a uma aprovação altíssima, uma pesquisa Quaest de 2025 apontou 88%, a maior do país entre governadores 5455. Vozes críticas, contudo, questionam o custo humano do modelo, apontando dureza policial e o clima de medo como contraface dos números 54.
  • Fiscal e agro. Após a reeleição, propôs a "Taxa do Agro", com alíquota baixa sobre produtos do agronegócio 51; e projeta-se nacionalmente como gestor de rigor fiscal.

3. Controvérsias e Escândalos

Aqui a lanterna precisa de duas mãos firmes, porque o passado de Caiado é grave e porque a gravidade não autoriza a injustiça.

  • A sombra da UDR e a violência no campo. Este é o ponto mais sério, e exige precisão. É fato documentado, inclusive por confissão de dirigentes da própria entidade, que a UDR arrecadava recursos em leilões de gado para compra de armas: 1.636 no primeiro leilão (Goiânia), 2.430 no segundo (Presidente Prudente), com estimativas de um arsenal de dezenas de milhares de armas entre seus membros, sob o argumento de "legítima defesa" 4647. É fato histórico que o período de auge da UDR (1985–1989) coincidiu com o ápice da violência no campo, com centenas de assassinatos de trabalhadores rurais, e que figuras ligadas à entidade em outros estados aparecem em episódios notórios, como o mandante do assassinato de Chico Mendes era apontado como representante da UDR no Acre; um dos personagens do massacre de Corumbiara fundou a UDR em Rondônia 49. E é fato atribuível ao próprio Caiado o discurso da força: em entrevista de 1986, chamou a reforma agrária de "terrorismo fundiário", e em 1989 defendia que proprietários se armassem para resistir a ocupações 5049.

    Mas aqui aplico o mesmo rigor jurídico que apliquei a Lula e a Flávio, e ele corta em favor de Caiado neste ponto: associar institucionalmente a UDR a crimes é uma coisa; imputar a Ronaldo Caiado a responsabilidade penal por assassinatos específicos é outra, e essa não está estabelecida, pois ele não foi condenado por tais crimes. Portanto, distingo com clareza: o que julgo é o registro documentado: a retórica da força que é dele, e a natureza da entidade que ele fundou e presidiu, e não uma culpa criminal pessoal que a Justiça não firmou. A peneira pesará a doutrina daquela bandeira; não condena um homem por sentença que não existe.

  • Nepotismo aparente. No episódio da nova subsidiária de energia, sua filha, Anna Vitória Caiado, foi contratada como advogada da equipe jurídica, fato que suscitou críticas de favorecimento 51.

4. Perfil Pessoal e Posições Morais

Caiado é casado com Maria das Graças ("Gracinha") Caiado desde 1990; entre os filhos, Ronaldo Caiado Filho faleceu em 2022 43. Provém de uma família goiana de raiz católica tradicional, embora eu não tenha encontrado dele uma profissão religiosa pública destacada e, fiel ao método, declaro essa lacuna em vez de preenchê-la com suposição.

Sobre as posições morais, o traço notável é que, ao contrário de Flávio (guerreiro cultural) e de Lula (que tem fórmula fixa sobre o aborto), a identidade pública de Caiado é construída muito mais na economia, no agronegócio e na segurança do que na pauta de costumes. Ainda assim, há um ato concreto a registrar: como governador, sancionou a Lei 22.537/24, que institui em Goiás uma "Campanha de Conscientização contra o Aborto", prevendo inclusive o fornecimento à gestante de ultrassom com os batimentos cardíacos do nascituro 59. É uma medida de orientação pró-vida, e a peneira a pesará como tal.

5. Plano de Governo 2026

A pré-candidatura organiza-se em torno de 555660:

  • Rigor fiscal. Ajuste duro, nas suas próprias palavras, "cortar na carne", como marca central 55.
  • Segurança pública. O foco principal, com o "modelo Goiás" como vitrine e discurso de linha dura contra o crime organizado 5558.
  • Agronegócio e reindustrialização. Fortalecimento do agro e aposta em reindustrialização via minerais críticos e terras raras 55.
  • Posicionamento. "Via independente" à direita, distante do bolsonarismo raiz, atraente ao mercado financeiro e ao agronegócio, com o desafio de ser pouco conhecido fora do Centro-Oeste (cerca de 3% de intenção de voto, contra 88% de aprovação em Goiás) 5556.

II. A Peneira Doutrinária

Eixo Econômico-Social

Tese 1 — A propriedade: direito legítimo ou ídolo intocável?

Esta é a tese que faz de Caiado o candidato mais instrutivo dos três, porque nele a doutrina da Igreja incide com uma precisão quase cirúrgica.

Parece, e há aqui uma verdade que a esquerda frequentemente despreza, que defender a propriedade privada é defender um direito real e um pilar da ordem; e que a invasão sem lei, o "terrorismo fundiário" da ocupação violenta, é uma desordem que fere pessoas concretas. E de fato a Igreja defende a propriedade privada e condena o coletivismo que a aboliria (Rerum Novarum, contra o socialismo).

Sed contra, e agora ouça-se a Igreja inteira, não a metade que conforta. A mesma tradição que defende a propriedade a subordina, sem exceção, ao destino universal dos bens e à sua função social. A Populorum Progressio é de uma severidade que envergonha quem a invoca pela metade: a propriedade privada não constitui para ninguém um direito absoluto e incondicionado, e nenhum tem o direito de reservar para seu uso exclusivo o que excede à sua necessidade quando falta o necessário aos outros (§§22–23); a encíclica admite, para o bem comum, até a expropriação de latifúndios mal utilizados (§24). O Catecismo confirma que o direito à propriedade não abole o destino universal dos bens, e que o proprietário é administrador também para os outros (§§2403–2406). E a Laborem Exercens (§14) subordina a propriedade ao trabalho e ao uso comum dos bens.

Respondeo: distingo com bisturi. Sobre a defesa da propriedade como direito e a condenação da violência sem lei — [CONFORME] (a Igreja não abençoa a invasão). Mas sobre a "intocabilidade do regime de propriedade", o próprio lema fundacional da UDR, [DISSONANTE], e frontalmente (Populorum Progressio, §§22–24; Catecismo, §§2403–2406). Propriedade intocável é uma contradição nos termos da Doutrina Social: nenhuma propriedade é intocável, porque toda propriedade é administração sob o destino universal dos bens. E note-se o espelho perfeito: a mesma vara que, em Lula, condenou o Estado que se absolutiza contra a subsidiariedade condena, em Caiado, a propriedade que se absolutiza contra a função social. A Igreja recusa os dois ídolos.

Acrescento um fato histórico que a honestidade não me deixa calar: no Brasil, foi a própria Igreja, a CNBB e a Comissão Pastoral da Terra, uma das principais vozes a favor da reforma agrária e contra a violência da UDR. A instituição cuja doutrina aqui aplico esteve, historicamente, do lado oposto da bandeira que deu rosto a Caiado. Registro-o não como insulto, mas porque a lanterna não escolhe o que ilumina.

Tese 2 — A retórica da força.

Parece legítima a defesa do próprio da terra. Sed contra: a Populorum Progressio ensina que é a injustiça que engendra a violência, e o Evangelho ordena a paz; o armamento como instrumento de pressão e o flerte com a autodefesa privada chocam-se com a dignidade dos trabalhadores rurais e dos sem-terra, que estão, note-se, entre os pobres por quem a Igreja tem opção preferencial (Sollicitudo Rei Socialis). Respondeo: sobre a retórica documentada da força e a lógica que alimentou o conflito no campo — [DISSONANTE] (Populorum Progressio; Sollicitudo Rei Socialis). Sobre a pessoa de Caiado, a mesma régua jurídica dos outros: julgo o discurso que é dele, não uma culpa penal inexistente.

Tese 3 — O neoliberalismo, as privatizações e o "cortar na carne".

Parece virtude de bom gestor privatizar o ineficiente e equilibrar as contas, e há aqui um bem real, pois a Igreja reconhece a livre iniciativa e a subsidiariedade (Centesimus Annus, §§32, 48). Sed contra, e é o mesmíssimo dente que mordeu a "escala 7×0" de Flávio. A Quadragesimo Anno condena o liberalismo sem freios como condena o socialismo; a Centesimus Annus (§§34–35) adverte que há bens que o mercado não satisfaz e que o Estado deve garantir o bem comum e proteger o fraco. A privatização da energia que degradou um serviço essencial, quedas que penalizaram os mais pobres, é a ilustração viva do risco de subordinar o bem comum ao lucro. Respondeo: sobre a responsabilidade fiscal e a subsidiariedade em si — [CONFORME]; sobre a privatização que sacrifica a qualidade do serviço essencial e a austeridade que pesa sobre o vulnerável — [CONFORME COM RESSALVA] (Centesimus Annus, §§34–35). E o nepotismo aparente toca, ainda, o dever de que a autoridade sirva ao bem comum, não ao interesse privado (Catecismo, §§1903–1904).

Eixo Moral e Antropológico

Tese 4 — A defesa da vida.

Parece, e coincide com a verdade, que promover a conscientização contra o aborto é servir à vida. Sed contra: o Catecismo ensina a proteção absoluta da vida desde a concepção (§§2270–2273). Respondeo: [CONFORME]. A Lei 22.537/24 é um ato de orientação pró-vida, e nisto Caiado caminha com a Igreja, como Flávio, e ao contrário de Lula. Registro, por honestidade, que a pauta moral ocupa em seu discurso um lugar secundário ao da economia e da segurança; mas o ato concreto existe e é reto.

Eixo Político-Institucional

Tese 5 — O punitivismo e o "modelo Goiás".

Parece, e para o cidadão amedrontado, com razão aparente, que a dureza restaura a ordem, e a alta aprovação parece confirmá-lo. E a Igreja reconhece o dever do Estado de proteger o inocente (Catecismo, §2266, primeira parte). Sed contra: o mesmo §2266 ensina que a pena visa também corrigir e recuperar o culpado, e a dignidade da pessoa não termina na cela; as críticas ao custo humano do modelo tocam esse nervo. Respondeo: [CONFORME COM RESSALVA], o dever de proteger é real e creditável; a lógica que esquece a recuperação e a dignidade do apenado, não (Catecismo, §2266). É a mesma ressalva que fiz ao punitivismo de Flávio: a dignidade humana não é concedida à direita mais barato do que à esquerda.

Tese 6 — O gestor institucional e a captura setorial.

Parece um mérito, e em parte é: Caiado apresenta-se como figura institucional e administrativa, distante do assalto às instituições e, comparado ao ataque frontal de Flávio aos tribunais, este é um ponto a seu favor. Sed contra: pesa a questão do bem comum. Caiado é um dos políticos mais financiados pelo agronegócio e proprietário de vasta extensão de terras 49; e a doutrina (Populorum Progressio; Compêndio) exige que o governante sirva ao bem comum de todos, não a um interesse setorial. Respondeo: [CONFORME COM RESSALVA], louvável o respeito institucional; a vigiar, se o governo serviria à nação ou ao setor que o sustenta. A régua que perguntou "para quem governa Lula?" pergunta também "para quem governaria Caiado?".

III. Síntese

Sem recomendação de voto, apenas o retrato, e a lição que os três juntos já permitem enxergar.

Ronaldo Caiado completa o tríptico e o esclarece. Do lado da luz, alinha-se à Igreja na defesa da vida (com ato concreto), oferece a credencial real de uma gestão fiscalmente responsável, e apresenta-se como figura mais institucional do que os polos em guerra, méritos que a honestidade não cala. Do lado da sombra, encarna, mais do que qualquer outro candidato, a absolutização da propriedade que a Populorum Progressio reprova com a mesma severidade com que reprova o coletivismo; carrega o gravíssimo passado da UDR (pesado com rigor jurídico, sem imputar-lhe crime que a Justiça não firmou); e reedita, no eixo econômico e no punitivo, as mesmas ressalvas que marquei em Flávio.

E aqui está a lição do tríptico, que só se vê com os três à luz: Lula absolutiza o Estado; Caiado, a propriedade; e ambos, em pontos distintos, negligenciam a dignidade concreta, o primeiro na vida por nascer, o segundo no trabalhador do campo e no apenado. A Igreja não está com nenhum dos ídolos. Ela quer o Estado a serviço da pessoa e a propriedade a serviço do bem comum; a vida protegida do ventre à cela.

Renan Antônio Ferreira dos Santos

Chego ao quarto candidato, e é aqui que a lanterna mais precisa ser lanterna, porque é aqui que os fantasmas são mais densos, e de dois tipos opostos. Renan Santos é o único dos cinco que nunca ocupou cargo eletivo, o mais novo em política institucional, e aquele em torno de quem circulam, ao mesmo tempo, caluniadores que inventam e admiradores que higienizam. Arrancar o lençol, aqui, significa duas coisas: dispensar a conspiração escancarada e não fingir certeza onde há dúvida real. Farei as duas, e onde a evidência for ambígua, direi que é ambígua, porque a honestidade de um leigo consiste, primeiro, em não afirmar mais do que sabe.

I. Dossiê Factual

1. Trajetória e Ideologia

Renan Antônio Ferreira dos Santos nasceu em São Paulo, em 14 de fevereiro de 1984, filho de psicólogo e advogada 6263. Empresário e músico (guitarrista da banda Limão Rosa), ingressou na Faculdade de Direito da USP, onde militou no movimento estudantil, mas abandonou o curso; foi filiado ao PSDB entre 2010 e 2015 6368. Sua entrada na política nasceu no ambiente digital libertário, o grupo "Renova Vinhedo", de 2014, e logo desembocou no projeto que o notabilizou: naquele mesmo ano, cofundou o Movimento Brasil Livre (MBL), ao lado de Kim Kataguiri, Fernando Holiday, Rubinho Nunes e outros 626368.

Foi um dos principais articuladores das manifestações de 2015–2016 pela Operação Lava Jato e pelo impeachment de Dilma Rousseff, atuando na formação do "Comitê do Impeachment" 6365. Ao longo de mais de uma década, consolidou o MBL como uma das maiores forças políticas digitais do país, sempre nos bastidores, sem disputar cargo 6164. Em novembro de 2025, o TSE homologou o Partido Missão, criado a partir do MBL para resolver a antiga dispersão do movimento por várias legendas; Renan assumiu a presidência e tornou-se seu primeiro pré-candidato à Presidência, a primeira eleição de sua vida 6162.

Ideologicamente, é o mais liberal-libertário dos cinco: o MBL é fiscalmente conservador e economicamente liberal 69, e Renan prega a redução do Estado e a ruptura com o "sistema". Distancia-se tanto de Lula quanto do bolsonarismo, propondo o que chama de "modelo reformista" e projetando o Missão como uma das três grandes forças do país 65. Nas pesquisas, oscila entre 3% e 6%, terceira colocação, em empate técnico com Caiado e Zema, com desempenho notável entre a Geração Z, mas com cerca de 74% do eleitorado ainda sem saber quem é 6566.

2. Registro de Atos

Diferentemente dos outros quatro, Renan não tem mandato, não há leis sancionadas, votações ou gestão a examinar. Seu "registro" é o do ativismo: a articulação do MBL, a mobilização pró-impeachment, a construção de uma das maiores máquinas de comunicação política digital do país. É um capital real, mas de natureza distinta; a análise o registra como o que é: militância e articulação, sem cobrar dele a obra legislativa que sua trajetória não teve.

3. Controvérsias e Escândalos

Aqui a lanterna trabalha nos dois sentidos.

  • A conspiração a dispensar. Circulam nas redes acusações fantasiosas de que Renan seria "maçom, ocultista, sionista, satanista que bebe adrenocromo e faz rituais". Isto é lixo conspiratório, e o dispenso como dispensei a fábula que caluniava Lula e o conteúdo falso que ligava Flávio ao Banco Master. A régua da honestidade protege até quem eu critique.
  • O fato pessoal confirmado. Em abril de 2026, Renan confirmou uso pessoal de substâncias ilícitas, comprometendo-se a cessar caso o eleitorado se oponha 71. Registro-o como fato, e noto a tensão que ele guarda com o discurso punitivista do partido, examinada adiante.
  • A questão religiosa — corroborado e contestado, separados. Aqui é preciso o bisturi. É corroborado (e não desmentido por ele) que Renan tem uma tatuagem do deus pagão Mitra e que seu perfil pessoal é secular, não o de um candidato cristão praticante, ao contrário do enquadramento cristão-conservador de Flávio. Já são atribuídas a ele, por fontes hostis e a partir de uma conta antiga (2010), declarações de teor abertamente desdenhoso da fé cristã e favorável ao aborto 72. Trato essas atribuições com cautela: são antigas, vêm de adversários que o pintam como "apóstata", e não as reproduzo. Mas registro que existem e que alimentam uma dúvida legítima, não sobre a alma dele, que só Deus lê, mas sobre a sinceridade de um ponto examinado a seguir.

4. Perfil Pessoal e Posições Morais

E eis o ponto mais delicado, que a lanterna ilumina sem resolver. O MBL nasceu recusando-se a comentar temas morais, sua origem é libertária. Com o tempo, o movimento aderiu à "guerra cultural", passando a pregar contra o aborto, contra o feminismo e contra a "ideologia de gênero", e há registro jornalístico de que essa guinada se deu, ao menos em parte, porque "pauta conservadora dá voto", ao contrário da austeridade 70. A posição institucional atual do campo é, portanto, culturalmente conservadora.

Mas a lanterna tem o dever de mostrar a costura por baixo do tecido: essa conversão conservadora repousa sobre fundações contestadas. O líder tem passado pessoal atribuído de sinal oposto (pró-aborto, hostil à Igreja) e símbolo pagão confesso; e ainda em 2026 sua posição sobre o aborto é objeto de debate público, há material perguntando explicitamente se Renan é a favor do aborto 72. Portanto, declaro a incerteza: não afirmarei que ele é pró-vida por convicção, nem que é pró-aborto por certeza. O que há é uma posição institucional conservadora sobre fundações que a própria trajetória põe em dúvida e isso, e não uma falsa certeza, é o que a peneira pesará.

5. Plano de Governo 2026 (Partido Missão)

O programa é o mais radical dos cinco 626567:

  • Segurança e penal — o lema "prendeu, matou". Medidas severíssimas para crimes violentos: fim da progressão de regime e pena de morte para crimes hediondos cometidos contra crianças e pessoas vulneráveis 62.
  • Economia liberal-libertária. Redução do Estado (com exceções "estratégicas"), industrialização do Nordeste, e reservas públicas em Bitcoin 65.
  • Ruptura institucional e federativa. Avaliação de prefeitos e governadores por índices objetivos (educação, saneamento, saúde, IDH), com perda de direitos políticos para gestores que não entreguem resultados; e a proposta de que municípios deficitários deixem de existir e se fundam a outros, sob o argumento de que o Centro-Sul paga impostos demais para sustentar o Centro-Norte e o Nordeste 6567.

II. A Peneira Doutrinária

Eixo Político-Institucional e Penal

Tese 1 — A pena de morte.

Esta é a dissonância mais clara do ensaio inteiro, e o momento em que a régua única atinge sua máxima nitidez.

Parece, e para quem chora um filho vítima de um crime hediondo, com que força aparente, que só a morte do monstro faz justiça. Sed contra: a Igreja é hoje inequívoca. O Catecismo, revisto por Francisco em 2018, ensina que a pena de morte é inadmissível, porque atenta contra a inviolabilidade e a dignidade da pessoa, e a Igreja se empenha por sua abolição no mundo inteiro (§2267). Respondeo: [DISSONANTE], plena e sem atenuante (Catecismo, §2267).

E agora a chave de todo o ensaio, o momento em que a vara prova que não tem lado: reprovei em Lula a permissividade com o aborto porque a vida é inviolável desde a concepção; e reprovo aqui a pena de morte porque a vida é inviolável até seu termo natural, inclusive a do culpado. A cultura da vida é uma só peça, sem costura: protege o inocente no ventre e o condenado no cárcere. Quem defende um e despreza o outro não professa a doutrina da Igreja; professa metade dela, a metade que lhe agrada. A mesma inviolabilidade que condena Lula condena o Missão. Este é o coração da régua única.

Tese 2 — O punitivismo "prendeu, matou".

Parece zelo pela ordem; e a Igreja reconhece o dever de proteger o inocente. Sed contra: o Catecismo ensina que a pena visa também corrigir e recuperar o culpado (§2266), e o lema "prendeu, matou" é a própria negação dessa finalidade. Respondeo: [DISSONANTE] (Catecismo, §2266). Somado à pena de morte, este é o eixo mais frontalmente contrário à doutrina em todo o ensaio. E registro a tensão pessoal: um punitivismo máximo pregado por quem confessou uso de drogas ilícitas 71 carece, no mínimo, de coerência.

Eixo Econômico-Social

Tese 3 — O liberalismo radical e a recusa da solidariedade federativa.

Renan é o teste mais puro da crítica da Igreja ao liberalismo, assim como Lula foi o do estatismo e Caiado o do latifúndio.

Parece, e há aqui um bem real que a esquerda despreza, que a liberdade econômica gera prosperidade, que o Estado inchado é um peso, e que exigir resultados dos gestores é bom senso. E a Igreja de fato reconhece a livre iniciativa, a empresa e a legítima autonomia da economia (Centesimus Annus, §32). Sed contra: a Quadragesimo Anno condena o liberalismo sem freios com a mesma firmeza com que condena o socialismo; a Centesimus Annus (§§34–35) adverte que há bens que o mercado não satisfaz. Mas o golpe mais grave vem da proposta federativa: dizer que o Centro-Sul não deve "sustentar" o Nordeste, e que os municípios pobres devem "deixar de existir", colide de frente com o princípio da solidariedade, que a Sollicitudo Rei Socialis (§§38–40) define como a determinação firme de se empenhar pelo bem comum, porque somos todos responsáveis por todos, e com a opção preferencial pelos pobres. O Nordeste é a região mais pobre; propor cessar a solidariedade para com ele é, doutrinariamente, recusar o próprio vínculo que faz de uma nação um corpo, e não um mercado.

Respondeo: sobre a liberdade econômica e a responsabilidade fiscal em si — [CONFORME] (Centesimus Annus, §32). Sobre a recusa da solidariedade regional e a absolutização do mercado que esquece os pobres — [DISSONANTE] (Sollicitudo Rei Socialis, §§38–40; Centesimus Annus, §§34–35). E a proposta de retirar direitos políticos de gestores por índices, um tecnocratismo que fere a dignidade da representação e o direito à participação (Compêndio da DSI), merece [CONFORME COM RESSALVA], tendendo ao dissonante: exigir resultados é justo; suprimir a cidadania política de quem não os atinge é abrir a porta a uma elite meritocrática que decide quem tem voz. (Quanto às reservas em Bitcoin, é matéria prudencial, sem doutrina específica, apenas o aviso da Caritas in Veritate de que as finanças precisam de ética e estabilidade.)

E aqui o ensaio completa seu mapa dos ídolos: Lula absolutiza o Estado; Caiado, a propriedade; Renan, o mercado e o indivíduo, e a este soma a recusa da solidariedade. A Igreja não está com nenhum dos três. Ela quer o Estado a serviço da pessoa, a propriedade a serviço do bem comum, e o mercado a serviço da solidariedade.

Eixo Moral e Antropológico

Tese 4 — O aborto, a família e a questão da sinceridade.

Aqui a lanterna ilumina, mas se recusa a fingir que resolve. Parece que Renan está com a Igreja, porque a posição institucional do seu campo hoje é contrária ao aborto e à "ideologia de gênero". Sed contra: a doutrina sobre a vida e a família é clara (Catecismo, §§2270–2273, 1601–1605), mas a doutrina também preza a verdade (Caritas in Veritate), e a verdade aqui é que essa posição conservadora é de adesão tardia e contestada, assentada sobre um histórico pessoal atribuído de sinal oposto e sobre um cálculo eleitoral documentado ("pauta conservadora dá voto") 7072.

Respondeo: e por isso emito um veredito duplo e honesto. Sobre a posição institucional declarada, contrária ao aborto e à redefinição da família, enquanto declarada, ela é [CONFORME] ao que a Igreja ensina. Mas sobre a sinceridade e o fundamento dessa posição, a lanterna acende um ponto de interrogação grave, porque as fundações são contestadas e a convicção é duvidosa. Não certifico o coração de ninguém, nem para condenar nem para absolver. Digo apenas: aqui a coincidência com a Igreja pode ser de conveniência, não de convicção, e o eleitor católico faria bem em pesar a diferença. Declaro a dúvida em vez de dissolvê-la falsamente, que é o máximo que um leigo honesto pode fazer diante de uma alma que não vê.

III. Síntese

Sem recomendação de voto, apenas o retrato, e a lição que agora, com quatro candidatos à luz, se completa.

Renan Santos é o outlier do quinteto, e o mais instrutivo em dois sentidos. Do lado da luz, oferece o que a esquerda despreza: o valor da liberdade econômica e da iniciativa (Centesimus Annus, §32) e apresenta uma posição institucional que, como declarada, alinha-se à Igreja na vida e na família. Do lado da sombra, concentra a dissonância mais límpida de todo o ensaio: a pena de morte, que a régua da vida condena com a mesma firmeza com que condenou o aborto de Lula, porque a cultura da vida é inteira ou não é nada. Sobre isso somam-se o punitivismo sem recuperação, a absolutização do mercado, e, o mais grave doutrinariamente no eixo social, a recusa explícita da solidariedade para com a região mais pobre do país. E sobre a pauta moral, a lanterna ilumina uma coincidência de fundações duvidosas, e tem a honestidade de dizer que não sabe se é convicção ou conveniência.

Com ele, o mapa dos ídolos está desenhado: o Estado (Lula), a propriedade (Caiado), o mercado e o indivíduo (Renan). A Igreja recusa os três, e, no caso de Renan, recusa também a mais escancarada violação da cultura da vida em todo o espectro analisado, a pena capital, com a mesmíssima vara que usou contra o aborto.

Romeu Zema Neto

Chego ao quinto e último candidato, e com ele o ensaio se completa, não apenas em número, mas em doutrina. Porque é em Romeu Zema que a Laudato Si', a encíclica de Francisco que até aqui dormia no acervo, finalmente acorda e se torna decisiva. Zema é o gestor mais experiente do grupo liberal, o que mais executou aquilo que os outros apenas propõem, e por isso é também o que oferece à lanterna o material mais concreto, e ao ecologismo cristão o teste mais direto.

I. Dossiê Factual

1. Trajetória e Ideologia

Romeu Zema Neto nasceu em Araxá (MG), no Triângulo Mineiro, em 28 de outubro de 1964, filho do empresário Ricardo Zema e de Maria Lúcia 75. É bisneto de Domingos Zema, que fundou em 1929 a primeira empresa do que viria a ser o Grupo Zema, conglomerado familiar do varejo (as Lojas Zema/Eletrozema), com braços em banco e seguros 74. Formado em Administração pela FGV, trabalhou no grupo desde a adolescência e o liderou de 1991 a 2016 7374. É divorciado (ex-esposa Ivana Scarpellini), pai de dois filhos, e possui também cidadania italiana 7579.

Filiado ao PL/PR por quase duas décadas (1999–2018) sem exercer atividade política, migrou para o Partido Novo em janeiro de 2018 e, no mesmo ano, como azarão em "onda antipolítica", elegeu-se governador de Minas Gerais, vencendo Antônio Anastasia (PSDB) no segundo turno com cerca de 72% dos votos, após passar à frente de Fernando Pimentel (PT) no primeiro 737479. Reelegeu-se em 2022, em primeiro turno, contra Alexandre Kalil 79. Renunciou ao governo em março de 2026 para disputar o Planalto, deixando o cargo ao vice Mateus Simões 79.

Ideologicamente, Zema é o rosto do Novo, legenda que se autodefiniu, em 2024, como "o partido mais à direita do Brasil", veda coligações com a esquerda e cultiva o liberalismo econômico: Estado mínimo, austeridade fiscal, privatizações, mérito e anticorrupção 76. Apoiou Jair Bolsonaro nos segundos turnos de 2018 e 2022, embora com relação oscilante ao bolsonarismo 77. Sua vitrine é a gestão fiscal de Minas e a atração de investimentos 77.

2. Registro de Atos

Aqui a honestidade obriga a apresentar as duas narrativas, porque este é o candidato sobre cujo governo elas mais divergem.

A narrativa do gestor (sua e do Novo): Zema recebeu Minas em situação fiscal calamitosa: dívida que hoje ronda os R$ 160–190 bilhões, 86% dela com a União 7581. Aderiu ao Regime de Recuperação Fiscal, cortou o que chama de privilégios, gerou empregos, atraiu investimentos e afirma ter regularizado salários e reduzido a criminalidade 78. Lançou os programas Minas Livre para Crescer (desburocratização) e Transforma Minas (gestão de pessoal) 75.

A narrativa da oposição e do funcionalismo (a sombra): para sindicatos, especialistas e a oposição na ALMG, Zema promoveu a desconstrução do Estado social, sucateamento e projeto de terceirização da saúde pública (o PL 2.127/24, que cria ente privado para gerir os hospitais da Fhemig), tentativas de privatizar a Cemig e a Copasa (esta última, saneamento de 11,5 milhões de mineiros) e de extinguir a exigência de referendo popular para vender estatais 8182. Acrescentam-se a PPP do saneamento nos vales pobres do Jequitinhonha e Mucuri (o "Água dos Vales"), o "saldão" do patrimônio imobiliário público, chegou a listar 343 imóveis, incluindo escolas, universidades e hospitais, com descontos de até 45%, reduzidos a 209 após resistência, e conflitos com professores em torno de escolas cívico-militares e recomposição salarial 8284. Registre-se ainda que, em 2023, Zema aumentou o próprio salário em cerca de 300% 89, fato que a peneira confrontará com seu discurso de austeridade.

3. Controvérsias e Escândalos

  • A tragédia de Brumadinho. No início de seu mandato, em janeiro de 2019, o rompimento da barragem da Vale em Brumadinho matou centenas de pessoas, um dos maiores desastres humanos e ambientais da história do país. A responsabilidade direta pelo crime foi da mineradora; mas a gestão ambiental de Zema, avaliada por especialistas como favorável às mineradoras e voltada ao desmonte de políticas ambientais, é matéria legítima de análise 8183. Os acordos de reparação: cerca de R$ 37,69 bilhões para Brumadinho (2021) e cerca de R$ 132 bilhões para Mariana (2024/2025) 83.
  • Relação com o funcionalismo. Há denúncias sindicais de perseguição, assédio moral e retaliação a servidores críticos, sobretudo na Cemig e na saúde 80.

Não localizei contra Zema processos criminais de vulto com condenação, seu perfil de controvérsia é de gestão e de modelo, não penal, e a análise o registra assim, com o mesmo cuidado jurídico dispensado aos demais.

4. Perfil Pessoal e Posições Morais

O traço notável, como em Caiado, é que a identidade pública de Zema é a do administrador liberal, não a de um candidato religioso e não localizei dele uma profissão de fé pública destacada, lacuna que declaro em vez de preencher. Mas, ao contrário do que se poderia supor de um liberal econômico, há posição moral concreta e documentada:

  • Aborto. Zema é contrário à ampliação do aborto. Em episódio recente (2026), manifestou-se favoravelmente a projeto que dificulta o acesso ao aborto legal, e criticou duramente uma resolução que facilitaria o procedimento, afirmando que ela incentivaria a ação de pedófilos 88. (Registro a delicadeza extrema do tema de fundo, casos de vítimas menores, e por isso me atenho à posição documentada, sem amplificar a retórica.) Notável: sobre esse mesmo tema, Lula, Flávio e Renan não se posicionaram quando procurados 88. Nisto, Zema alinha-se à defesa da vida.
  • Segurança e costumes. Alinha-se ao endurecimento penal e à pauta conservadora do Novo.

5. Plano de Governo 2026

Sob o slogan "O Brasil sem intocáveis", o plano tem como eixos 858789:

  • Reformulação do STF (a proposta mais emblemática). Enviar ao Congresso projeto para mudar as regras da Corte: mandatos para ministros, idade mínima mais elevada e restrições à atuação de parentes de ministros em escritórios de advocacia. Encalhado nas pesquisas, Zema trocou parte do discurso de gestor pelo confronto com o STF como estratégia de viabilização 8586.
  • Liberalismo econômico. Privatizações em larga escala, corte de gastos, Estado restrito a funções essenciais 8587.
  • Desmonte da CLT. Flexibilização trabalhista com contratos por hora ou períodos curtos e mudanças em direitos como as férias 85.
  • Segurança dura. Tratar facções criminosas como organizações terroristas, ampliar penas e reduzir a maioridade penal 85.
  • Agenda social pouco detalhada, conforme apontam analistas 87.

II. A Peneira Doutrinária

Eixo Econômico-Social

Tese 1 — O liberalismo executado: privatização, austeridade e desmonte da CLT.

Parece, e há aqui um bem real, talvez o mais real de sua candidatura, que sanear um estado falido é dever de bom administrador, e Zema de fato herdou Minas em ruína fiscal. A Igreja reconhece a livre iniciativa, a boa gestão dos recursos públicos e a subsidiariedade (Centesimus Annus, §§32, 48). Sed contra, e é o mesmo dente que mordeu a "escala 7×0" de Flávio e o liberalismo radical de Renan. A Quadragesimo Anno condena o liberalismo sem freios como condena o socialismo; e o desmonte da CLT, contratos por hora, corte de direitos como as férias, atinge frontalmente a Rerum Novarum, que defende o justo salário e o direito do trabalhador ao descanso, e a Laborem Exercens (§19), que consagra os direitos do trabalhador e a prioridade do trabalho sobre o capital. E a privatização de serviços essenciais, água (Copasa), energia (Cemig), saúde (Fhemig), quando arrisca piorar a qualidade e onerar o pobre, choca-se com a Centesimus Annus (§§34–35).

Respondeo: sobre a responsabilidade fiscal em si[CONFORME], e com o crédito de que a herança era mesmo desastrosa. Sobre o desmonte da CLT e a erosão do descanso[DISSONANTE] (Rerum Novarum; Laborem Exercens, §19). Sobre a privatização dos serviços essenciais[CONFORME COM RESSALVA] (Centesimus Annus, §§34–35). E aqui a peneira registra uma incoerência: pregar austeridade ao funcionalismo enquanto se aumenta o próprio salário em 300% fere a Caritas in Veritate, que funda a autoridade na verdade e na coerência. A mesma vara que, em Lula, condenou o Estado que sufoca a sociedade condena, em Zema, o mercado que espreme o trabalhador.

Eixo Ambiental

Tese 2 — A ecologia, a mineração e o clamor da terra.

Este é o eixo que distingue Zema de todos os outros, e onde a Laudato Si', silenciosa até agora, se torna a régua decisiva.

Parece que desenvolvimento e emprego justificam uma postura amigável à mineração, motor econômico de Minas. Sed contra: a Laudato Si' ensina a ecologia integral, que a terra clama, e que o clamor da terra e o clamor dos pobres são um só; que a água potável é um direito humano fundamental (§30); e denuncia o paradigma tecnocrático que subordina a natureza e o pobre ao lucro. Uma gestão avaliada como favorável às mineradoras e ao desmonte de políticas ambientais, no estado onde ruíram Mariana e Brumadinho, e uma PPP que entrega o saneamento dos vales mais pobres (Jequitinhonha, Mucuri) à lógica privada tocam esse nervo diretamente.

Respondeo: sou justo, a queda da barragem de Brumadinho foi crime da Vale, não ato de Zema. Mas a postura ambiental pró-mineração e o tratamento da água como serviço a privatizar, e não como direito a garantir, são [DISSONANTE] / [CONFORME COM RESSALVA] à luz da Laudato Si' (§30 e a crítica do paradigma tecnocrático). E noto: este é o eixo mais subexaminado no debate público sobre Zema, que se fixa no fiscal e no STF, é precisamente onde a lanterna presta seu serviço, iluminando o que a campanha prefere na sombra.

Eixo Político-Institucional

Tese 3 — "O Brasil sem intocáveis" e a reformulação do STF.

Parece saudável combater privilégios e "intocáveis", e há aqui um ponto legítimo. Sed contra: o Catecismo ensina que é preferível que cada poder seja equilibrado por outros poderes e que a autoridade se regule pela lei, e não pela vontade arbitrária dos homens (§1904). Ora, isto corta nos dois sentidos: reformas que fortaleçam o equilíbrio e a responsabilidade, mandatos, idade mínima, vedação ao nepotismo indireto, são, em princípio, legítimas e até salutares; mas a deslegitimação do Judiciário como estratégia eleitoral de quem está encalhado nas pesquisas ameaça o próprio equilíbrio que o §1904 louva. Respondeo: [CONFORME COM RESSALVA], as reformas institucionais concretas são defensáveis (Catecismo, §1904); o confronto instrumental com a Corte, não. Simetria com Flávio: assim como distingui, nele, o legítimo anseio de reconciliação da anistia sem verdade, distingo, em Zema, a legítima reforma institucional do ataque que apenas intimida.

Tese 4 — O punitivismo: facções como terrorismo e maioridade penal.

Parece firmeza contra o crime; e a Igreja reconhece o dever de proteger o inocente (Catecismo, §2266, primeira parte). Sed contra: o mesmo §2266 ordena que a pena vise também corrigir e recuperar, e a dignidade da pessoa não termina na cela. Respondeo: [CONFORME COM RESSALVA], o dever de proteger é real; a lógica que esquece a recuperação, não. É a mesma ressalva feita a Flávio, a Caiado e ao Renan: a dignidade do apenado não é concedida à direita mais barato do que à esquerda.

Eixo Moral e Antropológico

Tese 5 — A defesa da vida.

Parece, e coincide com a verdade, que opor-se à ampliação do aborto é servir à vida. Sed contra: o Catecismo ensina a proteção absoluta da vida desde a concepção (§§2270–2273). Respondeo: [CONFORME]. A posição documentada de Zema alinha-se à Igreja na defesa da vida, e faço questão de registrar, pela régua única, que nisto ele acerta onde Lula erra, e que se posicionou onde três dos concorrentes silenciaram 88.

III. Síntese

Sem recomendação de voto, apenas o retrato, e o fechamento do arco que os cinco juntos desenharam.

Romeu Zema encerra o ensaio e o completa. Do lado da luz, oferece o mérito mais concreto do campo liberal: a recuperação de um estado falido, que a Igreja não despreza (Centesimus Annus, §32), e alinha-se à defesa da vida (posicionando-se onde outros calaram). Do lado da sombra, repete, com a autoridade de quem executou, as dissonâncias do liberalismo sem freios: o desmonte da CLT contra a Rerum Novarum e a Laborem Exercens; e, sobretudo, a exposição no eixo que só nele se acende: o ambiental, onde a Laudato Si' cobra a subordinação da terra e da água ao lucro. A incoerência do aumento do próprio salário em meio à austeridade, e o confronto instrumental com o Judiciário, completam as ressalvas.

E assim o mapa dos ídolos está inteiro. Lula absolutiza o Estado; Caiado, a propriedade; Renan, o mercado e o indivíduo; Zema, o mercado executado, com o esquecimento da terra por acréscimo. Contra os quatro ídolos, a Igreja ergue uma só coisa: a pessoa humana, do ventre à cela, do trabalhador ao pobre do vale, da criação que geme à água que é direito.

Conclusão Geral

Cinco lanternas apagadas, um só Sol aceso

Percorri, com a lanterna na mão, os cinco cômodos desta casa mal-assombrada que é a corrida presidencial de 2026. Arranquei os lençóis que pude, dispensei os fantasmas que inventavam e recusei-me a inventar os que faltavam. Chega, agora, o momento de recuar até a soleira e olhar a casa inteira, não mais cômodo a cômodo, mas de um só golpe de vista, porque há coisas que só se veem quando se para de andar.

O que a lanterna mostrou, um a um

Lula apareceu genuinamente dividido: reto no fim social que a Igreja ordena com a opção pelos pobres, o combate à fome, a elevação dos últimos, e dissonante no fim moral que ela tem por inegociável,que é a defesa da vida desde a concepção, onde sua fórmula "contra pessoalmente, permissivo publicamente" não passou. No meio, as ressalvas do assistencialismo que a subsidiariedade contesta e a sombra da corrupção que manchou seus governos, pesada com o cuidado jurídico devido a quem teve as condenações anuladas, que anulação por vício não é absolvição de mérito.

Flávio Bolsonaro ofereceu o retrato inverso e complementar: firme na defesa da vida e da família, onde a Igreja o acompanha e dissonante no eixo social, onde a "escala 7×0" e a erosão do descanso do trabalhador chocam-se com a Rerum Novarum tão frontalmente quanto o assistencialismo alheio se chocava com a subsidiariedade. A anistia sem verdade e o punitivismo que esquece a dignidade do preso completaram sua sombra; a "rachadinha", arquivada por vício de prova, foi pesada com o mesmíssimo rigor aplicado à Lava Jato.

Ronaldo Caiado foi o mais instrutivo doutrinariamente: nele a Populorum Progressio incidiu com precisão cirúrgica, porque a "intocabilidade da propriedade", lema fundacional da UDR, é a contradição perfeita da função social dos bens. Reto na defesa concreta da vida; dissonante na absolutização da propriedade e nas ressalvas do liberalismo; e carregando o gravíssimo passado da UDR, pesado sem que se lhe imputasse crime que a Justiça não firmou.

Renan Santos trouxe a dissonância mais límpida de todo o ensaio: a pena de morte, que a régua da vida condenou com a mesma firmeza com que condenou o aborto, porque a cultura da vida é uma peça só, do ventre à cela. Somaram-se a recusa explícita da solidariedade para com o Nordeste e a absolutização do mercado; e, sobre a pauta moral, a lanterna acendeu um ponto de interrogação honesto sobre a sinceridade de uma conversão conservadora de fundações contestadas.

Romeu Zema encerrou e completou: reto na defesa da vida, posicionando-se onde outros calaram, e com o mérito real de haver recuperado um estado falido; dissonante no desmonte da CLT e, sobretudo, no eixo que só nele se acendeu, o ambiental, onde a Laudato Si' cobra a subordinação da terra e da água ao lucro. A incoerência do aumento do próprio salário em meio à austeridade e o confronto instrumental com o Judiciário fecharam as ressalvas.

A síntese: o mapa dos ídolos

Recuada a lanterna, o desenho salta aos olhos. Cada candidato, à sua maneira, ergue um ídolo e cada ídolo é um bem real que se absolutizou até virar falso deus. Lula absolutiza o Estado; Caiado, a propriedade; Renan, o mercado e o indivíduo; Zema, o mercado executado, com o esquecimento da terra por acréscimo. O Estado é bom, até engolir a sociedade. A propriedade é boa, até declarar-se intocável. O mercado é bom, até devorar o trabalhador e recusar o irmão pobre. A terra é para se cultivar, não para se espremer até a barragem romper.

E contra os quatro ídolos, a Igreja ergue uma só coisa, sempre a mesma: a pessoa humana. Não o Estado, não a propriedade, não o mercado, não o lucro, mas a pessoa, do ventre à cela, do operário ao pobre do vale, da criança por nascer ao velho no leito, da criação que geme à água que é direito. Foi por isso que a régua nunca teve lado: ela não defende a esquerda contra a direita nem a direita contra a esquerda; defende o homem contra todo ídolo que o queira devorar, seja qual for a cor da bandeira que o carregue.

Aqui está, pois, o veredito honesto que este ensaio pode dar: nenhum dos cinco é a lanterna, e nenhum é o Sol. Cada um traz luz num cômodo e sombra noutro. Nenhum passou limpo pela peneira e quem esperava encontrar um santo na cédula esperava o que a política, esta obra de homens caídos, não costuma oferecer.

Então, como vota o católico?

Eis a pergunta que resta, e a mais difícil, porque se nenhum candidato é plenamente conforme, o eleitor de fé fica diante de um dilema real. A Igreja não o abandona nesse ponto; ela lhe dá, não uma cédula preenchida, mas um método. E o método tem três degraus.

O primeiro é a consciência bem formada. O Catecismo ensina que a consciência é o juízo da razão que reconhece a qualidade moral de um ato concreto (§1778), e que ela não é o direito de fazer o que se quer, mas o dever de buscar o verdadeiro, e por isso precisa ser formada, num trabalho de toda a vida, à luz da Palavra de Deus, do Magistério e da oração (§§1783–1785). O Concílio chama a consciência de "o núcleo mais secreto e o sacrário do homem, onde ele está a sós com Deus" (Gaudium et Spes, 16). Votar como católico começa, portanto, muito antes da urna: começa no trabalho paciente de formar em si um juízo que seja de Deus, e não do próprio apetite nem da própria tribo.

O segundo é o discernimento do mal menor. A tradição moral da Igreja reconhece que, num mundo caído, nem sempre se pode escolher o bem puro, às vezes só se pode limitar o mal. A Evangelium Vitae (§73) ensina, como princípio geral, que é lícito apoiar medidas que reduzam um dano, sem com isso aprovar o mal que não se pôde extirpar, desde que não se pretenda nem se endosse esse mal, e haja razões proporcionadas. Aplicado ao voto: um católico pode, em consciência, votar num candidato que erra em pontos graves, para evitar um mal que julgue maior, contanto que não vote pelo erro, mas apesar dele. E a abstenção, quando a consciência assim o exigir, é também um ato legítimo. Este ensaio não fará esse cálculo pelo leitor, porque o peso de cada dissonância na balança de cada consciência é coisa que só o leitor, formado e diante de Deus, pode pesar. Mostrei os pratos; a mão que os equilibra é a sua.

O terceiro é o dever de participar. Formada a consciência e feito o discernimento, o católico não tem o direito de lavar as mãos. O Catecismo ensina que a corresponsabilidade pelo bem comum torna moralmente obrigatório o exercício do voto (§2240). A fé não nos tira da cidade; joga-nos nela, de mangas arregaçadas, para servi-la. O cristão não foge da política porque ela é suja; entra nela porque ela precisa de quem a lave.

A exortação: acenda a sua

Termino como comecei, com uma lanterna, e agora entregando-a. Porque a minha, cumprida a tarefa, deve apagar-se; e é a sua que precisa acender.

Não tema o campo escuro, meu irmão. É verdade que nenhum candidato brilha inteiro, que a casa está cheia de sombras, que os fantasmas gritam dos dois lados, mas o cristão não caminha pela luz que os homens acendem; caminha pela que não se apaga. A política é penúltima, importa, e muito, mas não é o fim; e quem sabe disso vota com seriedade e sem desespero, porque sabe que o Senhor da história não está na cédula, e sim acima dela. Forme a sua consciência. Reze antes de decidir. Vote como quem professa a fé, não como quem torce por um time. E, decidido, aja com paz, porque um homem que fez o que pôde diante de Deus não tem o que temer, ainda que a urna o decepcione.

As cinco lanternas que acendi ao longo destas páginas já podem apagar-se. Cumpriram seu ofício: mostraram os cômodos, arrancaram os lençóis, revelaram os ídolos. Mas todas elas, juntas, não passavam de velas, e a vela, por mais fiel que seja, existe para servir ao Sol, não para substituí-lo.

Que amanheça, então.

E que a luz que não vem de nenhum candidato, mas de Cristo, ilumine a consciência de cada um que for às urnas carregando, em vez de uma bandeira, uma alma formada.

Submissão final — A lanterna não é o Sol

Chego ao fim consciente de uma coisa: sou apenas um mero leigo que, aos trancos e barrancos, tenta analisar em conjunto com seus irmãos a situação trágica que vivemos na política brasileira, não sou o Magistério. Carrego uma lanterna, e a lanterna serve à luz, mas não é a luz. O Sol não presta contas à vela; é a vela que se acende no Sol.

Por isso, submeto tudo o que escrevi neste ensaio, do primeiro parágrafo ao último, ao juízo da Santa Igreja Católica Apostólica Romana. Se em qualquer linha, por descuido, ignorância ou soberba minha, eu houver dito algo que contradiga comprovadamente um documento do Magistério, uma encíclica, o Catecismo, a definição de um Concílio, a palavra de um Papa, então peço ao leitor que descarte o que eu disse e siga a Igreja. Não a mim. Nunca a mim.

Este texto não pretende ensinar à Igreja; pretende apenas servir-Lhe, ajudando um punhado de fiéis a votar com a consciência iluminada pela fé. Se serviu a isso, cumpriu seu ofício. Se em algum ponto atrapalhou, que se apague, como toda lanterna deve apagar-se quando amanhece.

Elias Sales de Freitas

21 de julho de 2026

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